07/03/2022
Transcrição EP #42 — Como medir impacto social?

Artur: Imagine só um projeto social, o que você quiser, da área que você quiser. Esse projeto já atendeu muita gente, mais de 200 comunidades em situação de vulnerabilidade por todo o país, fizeram parcerias com empresas privadas, atrairam muitos voluntários e de fato, nas comunidades por onde eles passaram, as pessoas falam que tem mais qualidade de vida, que a vida melhorou. A comunidade afirma que o projeto foi a melhor coisa para a vida deles. Mas será que tem como comprovar isso? Como você mostra para um investidor, de forma definitiva, de que valeu a pena fazer aquele projeto? É possível transformar essas percepções e sorrisos em dados, informações, gráficos e indicadores — que é a linguagem que falam os principais investidores do país e do mundo? Bom, essa é uma questão bem importante no setor social e muita gente acha que é impossível, mas não é.

 

Existem ferramentas que conseguem materializar esses benefícios intangíveis. E é para falar sobre a importância de medir o impacto social de forma pragmática, avaliar de fato se um projeto deu certo ou não — o que achar, se vale a pena continuar com esse projeto — que vamos conversar hoje com a Raquel Altemani, gerente de projetos no IDIS, Instituto para o Desenvolvimento Social Estratégico. E vamos entender como alguns projetos pelo Brasil estão fazendo isso.

 

Eu sou o Artur Louback

 

Roberta: Eu sou Roberta de Faria

 

Artur: E a mensuração de impacto social é o tema de hoje no… 

 

Artur e Roberta: Aqui se Faz, Aqui se Doa!

 

Artur: Está começando mais um episódio do Aqui se Faz, Aqui se Doa, o seu podcast semanal sobre cultura de doação produzido pelo Instituto MOL, com apoio do Movimento Bem Maior e divulgação do Infomoney. E o assunto de hoje é algo que muitas organizações acabam não dando a devida importância, que é a mensuração e avaliação dos impactos sociais dos seus programas ou projetos. 

 

Roberta: Parece que quando a gente trabalha com projetos sociais, investimos tanto tempo em planejar e desenvolver ações, executá-las na prática, que às vezes deixamos de lado uma parte muito importante do trabalho, que é fazer esse pós: medir os resultados que estamos causando, como eles afetaram a comunidade nesse momento, e em uma perspectiva de mais longo prazo, e até entender como isso pode ajudar na captação de recursos e atrair novos parceiros e renovar parcerias já existentes.

 

Artur: Isso é especialmente verdadeiro no Brasil, que, em geral, mede muito pouco os resultados dos seus projetos sociais e, acrescento aqui, não só sociais — acho que faz parte da cultura brasileira não ser tão pragmático, numérico. No Reino Unido essa questão já é uma questão estratégica. Lá, 75% das ONGs, medem de alguma forma, o retorno de seus trabalhos. 

 

Roberta: Talvez muita gente tenha a impressão de que medir impacto seja algo muito complexo, ou então que exija procedimentos muito custosos que só possam ser feitos por meio da contratação de uma equipe especializada, ou então é algo muito numérico e o terceiro setor é feito por bastante gente de humanas, que não se enxerga tanto nesse lado dos números. 

 

Artur: Pois é, principalmente quando a gente pensa nas pequenas organizações. Nem sempre elas têm braços, dinheiro e até conhecimento para saber quem faz esse tipo de trabalho e poder contratar uma consultoria, por exemplo. E acabam navegando no escuro mesmo, sem conseguir refletir os rumos do projeto, sem planejar estrategicamente o seu impacto e também tem dificuldades na hora de captar recursos.

 

Roberta:  A gente sabe que isso faz parte de um quadro de falta de recursos para o desenvolvimento institucional: poucas pessoas trabalhando em muitas frentes e acaba que essa pode ficar mais de lado frente às outras emergências diárias das causas. O legal é que hoje já existem metodologias e ferramentas específicas para medir o impacto de projetos sociais – e também bastante material na internet pra quem tá começando e quer entender isso melhor e fazer por conta própria. Só que antes de entrar nesse universo, vamos começar do princípio, explicando um pouquinho melhor o que é impacto social, e de onde vem essa ideia. 

 

Rafa: Olá, ouvintes do Aqui se Faz, Aqui se Doa! Se vocês ainda não me conhecem, eu sou a Rafaela Carvalho e, toda semana, trago aqui para o nosso podcast um termo importante para a cultura de doação que precisa ser melhor explicado ou desvendado. Hoje, como a Roberta disse, quero falar com vocês sobre Impacto Social. A gente vê esse termo o tempo todo, mas é bom explicar o que ele significa.

 

Não existe uma definição única para impacto social, esse termo pode ser entendido de diferentes formas. Mas, em linhas gerais, impacto social é a forma como um programa ou projeto afeta a vida de uma determinada comunidade. São aquelas transformações que acontecem na vida de alguém em um aspecto mais pessoal, não só em números.

 

Por exemplo, se a gente pensa em um projeto que leva água para as regiões mais áridas do sertão brasileiro, ele pode ser medido pelo número de cisternas instaladas, pelo número de famílias que se beneficiaram, ou pela quantidade de litros de água que distribuiu… Mas essa é só uma das dimensões desses benefícios –  aquela que pode ser contabilizada. Existe uma outra dimensão que não cabe nos números, mas que tem um valor muito importante para aquela comunidade, que é por exemplo, o conforto das pessoas que não precisam mais ir buscar água a quilômetros de casa, ou a felicidade que elas sentem em poder receber um visita e ter água na torneira e a autoestima mais elevada que um banho de água limpa traz pra vida dessas pessoas… 

 

Tudo isso tem um valor que é precioso e não pode ficar de fora na hora de avaliar um projeto. Isso é o impacto social, essa é a definição dele. Tudo certo? Deu para entender? Então, semana que vem eu volto com mais um conceito para explicar. É com vocês, Artur e Roberta?

 

Artur: Rafa, sempre simplificando os conceitos pra gente. Valeu, Rafa!

 

Roberta: Eu já to ficando mal acostumada com essa história… É tipo Google, que você não decora mais nada porque sabe que alguém vai estar ali para te explicar.

 

Artur: A Rafa é nossa Alexa!

 

Roberta: Bom, e pra entender melhor a diferença que a medição dos impactos pode trazer para um projeto, a gente vai trazer uma história bem interessante hoje. Nossa produção conversou com o Paulo Zuben, diretor pedagógico da Santa Marcelina Cultura, que é a organização social que está por trás do Programa Guri, um dos maiores projetos de educação musical para jovens e crianças no Estado de São Paulo.

 

Artur: E mesmo sendo um projeto super tradicional, nos 25 anos de existência, o Guri nunca tinha feito uma avaliação de impacto.  

 

Roberta: Ou seja, ilustra justamente aquilo que a gente tava comentando antes. Sobre essa ausência da cultura de avaliação dos projetos sociais aqui no Brasil…

 

Artur: Pois é, o Paulo contou que eles sempre faziam pesquisas de satisfação com os alunos, alunas e com os pais e mães, mas chegou um momento em que aquela informação já não era suficiente pra eles. Eles queriam entender de fato a mudança que estavam causando na vida das pessoas. E é aí que entra a avaliação de impacto, como o Paulo contou pra gente.

 

Paulo: Muitas vezes a gente que tá dentro, olha o programa nessa perspectiva de quem tá atuando e obviamente com comprometimento, com amor, com uma paixão muito grande pelo programa a gente tende a olhar positivamente tudo que nós fazemos. Até porque, a gente tem uma convivência muito próxima com alunos, alunas e familiares, sabe, efetivamente, de inúmeras transformações que nos chegam diretamente das pessoas que são beneficiadas pelo programa. Mas como a gente pode demonstrar isso pra quem tá fora? Pra quem não vive o dia a dia do programa, pra quem não tá na sala de aula, pra quem não conversa diretamente com nossas alunas, com nossos alunos, com os seus familiares? Essa tangibilização dos resultados foi fundamental e isso acabou transformando pra nós toda essa experiência em um grande aprendizado. Como é importante a gente poder demonstrar de uma maneira objetiva aquilo que a gente faz! Isso deu uma tranquilidade muito grande, mapeou pontos muito fortes do nosso trabalho, outros pontos potencialmente favoráveis para um crescimento, pontos de atenção… Então, realmente foi uma radiografia do programa muito profunda que nos deu a oportunidade de olhar pra o nosso trabalho de uma maneira nova, diferente, e isso foi muito saudável, muito rico e foi realmente uma experiência fundamental pra colocarmos no nosso planejamento estratégico futuro que aconteça periodicamente, pra essa medição de rumo, pra onde nós estamos indo, pra onde nós queremos chegar e que resultados estamos alcançando nesse percurso. 

Roberta: Muito legal, né? E o Paulo também contou pra gente como essa avaliação ajudou eles a transformarem em números essas percepções que eles já tinham no cotidiano, e de que modo isso acabou até facilitando a relação dele com os investidores: deixou de ser empírico e ficou bem pragmático:

 

Paulo: Então, para os nossos parceiros, quando a gente pode apresentar esses resultados, essa tangibilização, foi uma maneira muito positiva de demonstrar que isso tem um impacto muito grande na vida dos alunos, das alunas e dos familiares. No caso especificamente do Guri, esse retorno social do investimento foi de R$ 6,53. Isso signfica que a cada 1 real investido, causou um impacto na vida das pessoas equivalente a um retorno de 6,53 reais. É um número muito alto, hoje em dia as instituições tem um trabalho de responsabilidade social, e esse trabalho é muito mais profissional. Todas as grandes corporações e empresas atuando na área de responsabilidade social querem saber números, querem saber resultados… isso é muito importante para o setor. Quando você traz esse tipo de retorno de investimento pra uma conversa com um investidor financeiro, você tá falando a linguagem dele. Você coloca todo o seu trabalho no código que ele entende, e rapidamente, ele consegue compreender, quer entender a metodologia, quer entender como foi feito o cálculo, se isso tudo foi feito de maneira independente. Quando você demonstra tudo isso, a convicção dele de que você é um bom parceiro, que esse programa efetivamente causa esses resultados, acaba transformando a decisão de continuar investindo no programa em muito mais fácil. 

 

Artur: Bem interessante essa mudança de perspectiva que a avaliação traz pra todo mundo né? Pra organização, pros parceiros, pras pessoas que se beneficiam do programa… 

 

Roberta: Sim, e ajuda as organizações a se verem de fora pra dentro, mas também de dentro pra fora, olhar para o passado, projetar o futuro…. É um momento de profunda revisão, reflexão mesmo. Quase aquele ano sabático que você sonha em tirar pra entender como tem vivido até aqui e pensar em novos rumos pra vida. Fazer uma avaliação de impacto tem um pouco disso.

 

Artur: Bom, enquanto nosso sabático não chega, a gente pode conversar com a Raquel Altemani, nossa entrevistada de hoje. 

 

A Raquel já atuava nas áreas de gestão de projetos e processos em instituições financeiras, consultorias e institutos de pesquisa. Mas desde 2017, focou sua carreira na área de  Investimento social, com foco em planejamento estratégico e estudos de mensuração de impacto. Hoje, ela está à frente da coordenação de avaliações dos projetos no IDIS — Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, e tem grande experiência em ajudar as organizações a medir seus impactos e se entenderem desde uma outra perspectiva.

 

Roberta: Raquel, seja muito bem vinda ao nosso podcast, é um prazer te receber aqui!

 

Raquel: Obrigada, gente! Obrigada pelo convite.

 

Artur:  Raquel, há bastante tempo você tem ajudado organizações sociais a medirem seus impactos. Pra começar nossa conversa, a gente queria saber o que leva essas organizações a buscarem análises, como a que vocês fazem no IDIS, por exemplo? Por que chega um momento em que elas decidem medir o impacto social dos seus projetos? 

 

Raquel: Legal, Artur! Olha, os gatilhos para uma organização se interessar por uma iniciativa de avaliação podem ser diversos. A verdade é que a avaliação tem múltiplos usos, serve para mais de uma coisa. Com frequência, uma organização está interessada em ter um pouco de material sobre evidências concretas que possam ser apresentadas para investidores, ou potenciais investidores, como parte de uma estratégia de captação. Isso tem sido visto como uma ferramenta que fortalece o diálogo com investidores e facilita uma conversa para atrair potenciais investidores e aumentar o tamanho desse projeto.

 

Mas, um outro gatilho muito frequente, que é um uso muito valioso para uma avaliação, é você ter informações que sejam base para uma melhor tomada de decisão a respeito dos ajustes necessários para um projeto ou um programa. Como posso ampliar o impacto desse programa? Como ele tem sido sentido pelos beneficiários? Eu, de fato, estou conseguindo chegar nos objetivos que eu tinha? Existe alguma coisa que pode me levar mais perto desses objetivos, ou que pode ampliar esse potencial de impacto? Esse olhar mais analítico, mais investigativo, que me permite tomar melhores decisões, é muito comum em duas situações: em um programa que é recente, e ainda estou tentando comprovar minha tese de mudança, minha hipótese de transformações sociais que podem ser causadas; ou no contrário — programas que já existem há vários anos, já caíram em uma certa estabilidade de estratégia e estão se perguntando se ainda é o melhor modelo, ou se existe alguma evolução, alguma forma de ajustar. 

 

Então, esse olhar para o planejamento estratégico, para a tomada de decisão, um olhar de como ter o melhor aproveitamento possível dos recursos, também é bastante frequente nas organizações que procuram uma avaliação.

 

Roberta: E me conta, Raquel, quais são os métodos de avaliação social mais conhecidos hoje, como eles funcionam na prática? Porque tem várias maneiras de fazer isso: mais objetivas, menos objetivas, mais financeiras… Quais são as opções?

 

Raquel: A gente costuma dividir as avaliações, Roberta, em três naturezas principais. A gente tem as pesquisas qualitativas, que estão mais voltadas para um processo de escuta das pessoas envolvidas, coleta de depoimentos, de percepções, de expectativas, entender as narrativas das histórias de vida e como elas foram influenciadas por um programa — um olhar mais sobre a natureza das mudanças e como elas acontecem.

 

A gente tem os estudos que têm maior foco quantitativo focados na mensuração. Ou seja, conhecendo as naturezas dos impactos, como mensurar? Como coloco em um indicador que consiga calcular e acompanhar ao longo do tempo — se aumenta, diminui, fica estável? Calcular se um determinado impacto é mais intenso do que o outro, ou é percebido por um percentual maior de pessoas do que outro. Então, essa natureza da mensuração vem dos estudos quantitativos.

 

E a gente tem uma terceira natureza, que a gente chama de estudos de custo-benefício, que buscam comparar todo o recurso necessário pra que esse programa exista, ou seja todo o meu orçamento e o que foi investido, versus o que esse programa gera de benefício. A análise é um pouco mais financeira e exige um processo complexo que a gente chama de monetização: conseguir traduzir os impactos sociais, que normalmente são não financeiros — falando de aspectos humanos, sociais, ambientais — em uma analogia financeira para que consiga comparar com investimento. A gente chama isso de estudo de análise e custo-benefício.

 

Essas três naturezas podem ser habitadas separadamente ou de maneira integrada. Um dos estilos de estudo que a gente usa bastante no IDIS — Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social é o SROI. O SROI é um método de trabalho, um protocolo avaliativo, que propõe a integração dos três tipos. Ele exige uma pesquisa qualitativa, uma pesquisa quantitativa e uma análise custo-benefício — é uma forma de integrar essas três naturezas de pesquisa para chegar em uma visão bem completa que permita tirar conclusões e recomendações a respeito desse projeto.

 

Roberta: É daí que vem essas manchetes que a gente vê de à cada 1 real investido na organização, são tantos reais que retornam para a sociedade ou tantos reais economizados pelo poder público, né?

 

Raquel: Exatamente! A gente chega em um índice de retorno sobre o investimento. 

 

Artur: E Raquel, você falou agora de algumas metodologias de avaliação, que é algo que pressupõe um juízo de valor, se o trabalho está sendo bem feito, se é bem sucedido ou não. Eu noto uma certa confusão, quando se fala em transparência no setor social, entre avaliação, prestação de contas e monitoramento. Você pode falar um pouco sobre a diferença dessas coisas?

 

Raquel: Posso! Esse universo vem imbuído de uma série de conceitos e muitas vezes existe uma confusão entre eles. Vamos desmistificar essas diferenças.

 

O que a gente chama de monitoramento é ter um sistema contínuo, uma análise sistemática de indicadores que controlam a minha operação. Os controles de monitoramento estão mais relacionados com os processos realizados dentro de um programa: vão olhar para os indicadores das atividades, dos processos, do uso dos recursos. Por exemplo, uma organização que trabalha com educação vai ter o número de formações realizadas, de materiais impressos, coisas ligadas à operação.

 

Dentro do processo de monitoramento, tem os indicadores que a gente chama de indicadores de resultado — que são os mais comuns de encontrar em manchetes e publicações. Coisas como número de pessoas atendidas, número de cestas básicas doadas, número de jovens formados. Os indicadores de resultado estão quase sempre associados a medidas de alcance e escala. Então, ele mostra o que alcancei com o meu resultado principal, ou final. Estão ligados com amplitude.

 

O olhar para o impacto é o olhar para a transformação. Da mesma forma que em um indicador de resultado eu digo: “Atingi três mil pessoas”; o que uma avaliação de impacto está preocupada em responder é: “E o que aconteceu com essas três mil pessoas que não teria acontecido se elas não tivessem passado pelo programa? Qual foi a mudança? Qual foi a transformação?”

 

Vou comentar mais dois que são bem comuns: prestação de contas e prestação de satisfação (que é diferente de avaliação de impacto). Prestação de contas está ligada com transparência à respeito do uso de recursos. Com frequência é um relatório que é produzido para financiadores ou para a sociedade em geral, mas o que vai constar, geralmente, é quanto tive de recurso aplicado e o que foi feito com esse recurso, o uso detalhado a respeito de como o investimento que tive disponível foi aplicado no programa: comprei x materiais, contratei x fornecedores, treinei x pessoas… Como esse recurso foi utilizado. Isso pode ser mais ou menos detalhado. Posso fazer uma prestação de contas em quinze linhas, ou posso fazer muito detalhada com todas as notas fiscais.

 

Junto com essa prestação de conta mais financeira, muitas vezes existe uma prestação de contas do que foi feito. Então, tem fotos dos encontros que promovi para comprovar que eles foram de fato realizados. Mas entende que a prestação de contas tem quase um caráter que se aproxima da auditoria, quero uma comprovação, provas concretas que o que digo que aconteceu de fato aconteceu. Tem esse olhar para dar segurança.

 

A avaliação de impacto, por outro lado, está preocupada com a eficácia. Ou seja, tudo bem, eu fiz tudo o que estava planejado, cumpri todo o combinado… Mas a minha hipótese de transformação social se comprovou? O efeito que eu imaginava que as minhas ações teriam, de fato, aconteceram na intensidade que eu planejava? Tem um olhar um pouco mais investigativo a respeito das transformações sociais, ambientais ou econômicas. Não é simplesmente um check do que foi realizado, mas uma investigação profunda a respeito das mudanças que efetivamente se deram a partir das minhas ações. É um desdobramento das minhas ações com um olhar um pouco mais complexo.

 

Às vezes, as pessoas confundem a avaliação de impacto com a avaliação de satisfação. Muitas vezes um programa social passa uma pesquisa para beneficiários com algumas perguntas chaves entendendo que está fazendo uma avaliação de impacto, mas quando a gente olha o questionário da pesquisa, a gente percebe que é muito mais uma avaliação de satisfação. Então, que tipo de indicadores são esses: você ficou satisfeito com as instalações físicas do local? Você ficou satisfeito com a capacidade das pessoas que circularam por esse programa de te receber bem, fazer você se sentir acolhido? Está olhando para o nível de satisfação com os ativos, a equipe, a metodologia do programa, mas não está perguntando sobre as mudanças percebidas na vida dessas pessoas. É um olhar mais para dentro do programa, do que um olhar para as pessoas e os desdobramentos do que eu fiz na vida delas. Está fazendo perguntas sobre o projeto, não sobre as pessoas que passaram pelo projeto. Entende a diferença?

 

O olhar do impacto é para o que as pessoas valorizam naquilo que aconteceu na vida dela a partir dessa experiência? Que transformações aconteceram? Essas transformações vão se sustentar no tempo ou são temporárias e tudo vai regredir? De todas as mudanças que causei na vida dessas pessoas, qual foi a mais importante do ponto de vista delas? Como posso aumentar a percepção de impacto das mudanças que talvez não tenham aparecido com tanta força no olhar dessas pessoas? Se é uma mudança importante para mim, como acentuo isso? Qual o próximo passo de evolução desse projeto e como chego mais perto dos meus objetivos? Esse é o tipo de pergunta que uma avaliação de impacto busca responder.

 

Roberta: Raquel, a gente tem um estigma de que a avaliação de impacto ser algo muito complexo, como você mesma falou, e por isso muito custoso, leva muito tempo… Isso é verdade? Isso cabe só na vida de organizações grandes? Como as pequenas, que são menos estruturadas para isso, e estão começando, fazem? Vale a pena investir em uma auto-avaliação? Ou o ideal é sempre fazer isso com alguém do lado de fora, vendo com um olhar externo?

 

Raquel: O que a gente costuma defender aqui no IDIS é que toda a organização deveria ter um olhar atento para monitoramento e avaliação. A maneira que você vai ter para fazer isso, a complexidade do estudo, a duração, a sofisticação técnica tem que ser escolhida a partir da sua disponibilidade e do que faz sentido para esse programa. Não existe uma única forma de avaliar. A gente tem, sim, estudos que são caros e longos, mas isso não quer dizer que são a única forma de trabalhar em uma investigação a respeito de impacto. 

 

O que eu recomendaria para uma organização menor, que está se aventurando nesse universo, dando os primeiros passos no universo de monitoramento e avaliação, e se sente perdido, sem saber por onde começar: primeiro, recomendaria que desse uma olhada do que já tem de indicadores internos, mesmo os mais simples. Quando a gente fala dos indicadores de processo, de resultado, de amplitude, já é muito importante que a organização tenha se organizado. E, geralmente, são indicadores com uma complexidade muito baixa para serem coletados, alimentados e para que façam parte da estrutura de gestão de uma organização. Além de serem números, controles internos, que são muito relevantes, inclusive, para um estudo de impacto! É muito difícil conseguir fazer um estudo de impacto quando não existe nenhuma estruturação de indicadores internos, porque todos esses números (mesmo os mais operacionais, mais ligados a resultado) vão entrar, de alguma forma, no cálculo do impacto também.

 

Então, em primeiro lugar indicaria que você começasse a organizar a sua estrutura interna de indicadores: o que você já mede hoje? O que você não mede, mas pode ser útil para responder algumas perguntas e não exige grandes investimentos? Começa por aí.

 

Outra coisa que é interessante para as organizações que estão começando pensarem é: antes de começar a pensar em relação ao método de pesquisa, elencar que perguntas vocês têm a respeito do seu programa. Quais são as hipóteses que você gostaria de comprovar? Quais são as dúvidas a respeito de transformação social que você tem hoje no seu programa? O que você consegue afirmar com certeza — por conta de algum embasamento — e o que você sabe por uma percepção, intuição, instinto, olhar para com as pessoas com quem você convive — mas você não tem nenhuma prova concreta ou métrica que te permita embasar essa opinião? Que dúvidas te ajudariam a tomar uma decisão? Que hipóteses você tem que, se respondidas, te ajudariam a fazer uma melhor gestão do seu programa?

 

Quando a gente começa a pensar sobre as perguntas, antes de sair pensando em medir um monte de coisa, direcionamos o esforço. Porque, a partir de uma pergunta, pensamos: e o que eu precisaria ter de pesquisa para conseguir responder essa pergunta? O que me leva para mais perto dessa resposta? Aí, você vai dando um passo de cada vez! Não necessariamente você tem que fazer um estudo enorme de início: pensa nas principais perguntas estratégicas que você tem para o seu programa e o que te leva mais perto da resposta. Essa entrada no universo da avaliação pode acontecer pouco a pouco, não precisa começar com um estudo super completo e sofisticado. Pode ir dando passos nessa direção e encontrando respostas que podem ser muito valiosas para a sua tomada de decisão. Aos poucos, você vai tomando familiaridade com as ferramentas que te permitem fazer esse tipo de pesquisa.

 

Outra dica legal é que existe muito material livre para ser pesquisado e baixado (a gente até deixou alguns links para vocês disponibilizarem para o pessoal depois) que permitem que as organizações consultem avaliações de outras organizações feitas que publicam. Quando você lê um estudo avaliativo, isso vai te dando ideias e insights de coisas que você poderia aplicar na sua organização. Então, ler estudos e exemplos pode ser uma dica bem legal!

 

Por último, a última dica que eu daria, tenha um processo bacana de escuta das pessoas que passaram pelo programa, que é algo que também pode ser feito sem grande investimento, sem grande sofisticação. Por mais que você não tenha toda uma metodologia avaliativa por trás, tenha momentos e espaços em que você consegue ouvir as pessoas que passaram pelo programa e escutar delas como se sentiram e como a vida delas foi influenciada por essa experiência, por essa passagem. Isso por si só (escutar a experiência de transformação de outras pessoas para quem você proporcionou o serviço, o atendimento) pode te dar muitas informações importantes sobre potenciais ajustes, oportunidades, o que precisa melhorar, coisas que são muito valorizadas, coisas que você imaginava que era importante e descobre que não é tanto. Esse processo de ouvir das pessoas que passaram pelo seu programa pode ser muito rico e, às vezes, é uma coisa que pode ser feita rapidamente com alguns grupos de conversa, com processos de escuta. Pode ser uma experiência muito legal para as organizações que estão entrando nesse universo.

 

Artur: Muito bom! Raquel, o papo está muito bom. A gente vai ter outras oportunidades de ter você e o pessoal IDIS aqui. Na verdade, a gente já tem a Paula, nossa parceiraça. Mas nosso tempo está acabando hoje. Queria agradecer muito a sua presença e a gente faz votos que essa cultura da avaliação prospere no Brasil. A gente que faz a ponte entre financiadores e o terceiro setor, ouvimos muito que essa é a grande chave para que a cultura de doação engrene de verdade. As pessoas precisam falar a mesma língua, e a avaliação é uma linguagem comum que todo mundo entende.

 

Raquel: Legal, Artur! Eu super agradeço, muito obrigada pelo convite! Foi um prazer conversar com vocês. Convido todo mundo a entrar no site do IDIS, porque a gente está sempre lançando novos conteúdos sobre avaliação de impacto, então tem bastante material para ser consultado, disponível para todo mundo. Então, convido vocês a darem uma navegada no nosso site e encontrar materiais que podem ser de interesse.

 

Roberta: Muito bom! Mas antes de ir embora, você tem que responder a nossa rodada relâmpago, que todos os convidados que passam por aqui encaram. É bem simples, nós vamos te fazer 5 perguntas e você responde com a primeira coisa que vier à sua cabeça. Tá bom?

 

Raquel: Está jóia!

 

Roberta: Qual foi a sua doação mais recente?

 

Raquel: Amigos do Bem!

 

Artur: Qual é a sua causa do coração?

 

Raquel:  Arte e cultura!

 

Roberta: O que você doa e que não é dinheiro?

 

Raquel: Tempo, a gente no IDIS atende muitas organizações que nos procuram para pedir orientação, dicas, dica de leitura ou orientação de algum conteúdo e, com frequência, conversamos com organizações que não são, necessariamente, nossos clientes, mas precisam de algum direcionamento dentro do universo do investimento social.

 

Artur: Agora a mais difícil, Raquel! Cite uma organização ou um projeto que você admira muito.

 

Raquel: Uau! São tantos, a gente passa no IDIS por tantos! Você vai me colocar em situação difícil com nossos clientes!

 

Roberta: Uma para quem você doa com frequência, então!

 

Raquel: Olha, uma que tenho um carinho muito grande, foi um dos programas que eu avaliei, é uma organização que admiro muito sobretudo pelo que ouvi dos próprios beneficiários. Foi tão elogiada pelas pessoas que passaram por lá e tive a oportunidade de conviver com os profissionais, uma avaliação que tenho grande admiração e vi de perto. É o Programa Guri, da Santa Marcelina Cultura. Foi um dos nossos projetos de avaliação e foi muito impressionante ouvir o nível de engajamento que os beneficiários têm com o programa: quanto eles amam, sentiram sua vida transformada. Então, é um programa que tenho grande admiração. Mas poderia citar vários!

 

Roberta: Agora, Raquel, essa pergunta final é o seu grande momento de merchan. Queria saber quem você já convenceu a doar? Se você tem alguma história de alguém que você convenceu a doar. E se não o fez, faça agora ao vivo esse apelo! Para chamar as pessoas a doar para a sua causa!

 

Raquel: Confesso que hoje estou bem sensibilizada com as notícias a respeito dos cortes de investimento nas bolsas de iniciação científica. Li as matérias que saíram hoje e estou bem sensibilizada com esse tema e bem preocupada com as implicações que isso tem no futuro do país. Então, embora eu tenha citado arte e cultura como a minha causa do coração, a causa que me sensibiliza, é um tema que gosto muito, mas essa questão da pesquisa, inovação, ciência é algo tão importante e relevante para os nossos profissionais, nossos cientistas, estudantes que estão investindo tanto tempo em pesquisas que podem ter tanto impacto social… Hoje, eu falaria sobre isso para as pessoas refletirem como a gente pode apoiar o país nesse contexto. Como a gente não deixa a ciência morrer nesse momento em que ela é tão necessária.

 

Roberta: Trocar de presidente é um bom começo.

 

Artur: Eu apelaria aos nossos governantes! Governantes, doem a atenção para a ciência brasileira!

 

Raquel: Não é nem doação, deveria ser obrigação desse governo incentivar a ciência, as transformações. Infelizmente, está longe de ser qualquer prioridade. É muito triste!

 

Artur: Dias melhores virão! Raquel, muito obrigado pela presença! Foi ótimo ter você aqui, o programa foi excelente! A entrevista foi muito esclarecedora! Obrigado!

 

Roberta: Obrigada, querida!

 

Raquel: Muito obrigada gente, abraço para vocês!

 

Roberta: Bom Artur, depois desse papo super esclarecedor com a Raquel vamos para o nosso intervalo de dicas da Duda Schneider com o Merchan do Bem desta semana?

 

Duda: Oi, gente! Eu sou a Duda Schneider e esse é o Merchan do Bem! Hoje vou falar sobre o produto social Bolo Sonho, da rede Bolo da Madre, que tem parte do valor doado para a Associação Acorde. Tudo começou com o sonho do pequeno Luca, filho da Daniela, fundadora da rede, que queria transformar o seu doce preferido em bolo. A Dani resolveu realizar não só o sonho dele, mas o de muitas outras crianças beneficiadas pela Acorde e fundou o projeto social da rede chamado Sonho do Luca. Hoje, a cada Bolo Sonho vendido, a Bolo da Madre doa um valor fixo, entre 2 a 4 reais, dependendo do tamanho do bolo comprado. Mais uma vez vemos o poder da micro-doação: o projeto teve início em 2015 e, desde então, são mais de 300 mil reais doados para a Acorde! Incrível, né? E com mais essa doação, a Acorde ajuda a estimular, por meio da educação e das atividades cognitivas, o sonho das crianças para fazê-las acreditar que é sim possível! Então, corre na Bolo da Madre mais próxima de você, ou pode pedir por delivery pelo IFood, compre o seu bolo que é delicioso e ainda faça uma doação e ajude a transformar mais sonhos em realidade! Muito obrigada pessoal! E até a próxima!

 

Roberta: Que legal poder parar pra pensar e refletir sobre como estamos caminhando nos nossos projetos, né? Eu não tenho feito muito isso nos meus, mas saí inspirada, tanto pela história do Paulo quanto pelas estratégias da Raquel de abrir espaço no planejamento e na agenda para pensar mais sobre o que foi feito até agora, ao invés de só correr atrás do que falta lá na frente.

 

Artur: Eu adoro esse assunto, inclusive na MOL tenho trabalhado bastante nesse setor de transparência. Uma coisa que achei muito legal foi a Raquel fazer essa função de Rafa dando o léxico, o dicionário do setor de transparência e avaliação. Muitas vezes, o que eu noto é que muitas organizações entendem essa avaliação de satisfação como uma avaliação que funcionaria, ou deveria ter a função de captar recursos, e muitas vezes são duas coisas diferentes, geram indicadores que nem sempre funcionam para os dois lados. É importante a gente entender o que serve para cada coisa e cada um tem a sua dinâmica, tanto de levantamento, quanto de função, de uso.

 

Roberta: Artur, pra mim, uma reflexão que fica é que fazer avaliação com certeza é algo trabalhoso, que exige investimento, mas encararia como um investimento em prospecção de parcerias e captação de recursos. Porque, quando a gente viu a quantidade de manchetes que saiu, por exemplo, quando o Edu Lira, da Gerando Falcões, divulgou que o SROI da organização era de 3,50 reais — a cada 1 real investido, virou um retorno de 3,50 para a sociedade — saiu em tantos lugares, gerou tantas conversas que a gente fica com a sensação que esse investimento atrai mais parceiros, mais financiamento, facilita renovar as parcerias com as empresas que já existem. Porque são números que as pessoas entendem, nas empresas, quem está por trás das decisões financeiras. É um número bem mais claro! Não quer dizer que seja mais importante, mas é mais atraente, mais didático quando você vai vender a organização do que falar dos efeitos mais qualitativos e subjetivos de um impacto social. Saio muito com a sensação de que é preciso encarar essa avaliação como parte da prestação de contas, do retorno dos investidores, da avaliação do trabalho, mas também como estratégia mesmo para poder captar recursos e vender a nossa causa!

 

Artur: Muito bom! Voltaremos a esse assunto em algum momento aqui. É um assunto bastante importante, então, em breve, voltaremos. E quem tiver sugestões, até de temas relacionados a esse, mandem para a gente! Vamos adorar trazer novos recortes, novas visões sobre isso. Pode procurar a gente nos múltiplos canais onde está o Instituto MOL, mas, principalmente,  no @institutomol no Instagram ou no nosso perfil do LinkedIn! Você já tá seguindo nossos perfis? Tem muita coisa legal por lá!

 

Roberta: E se tiver sugestão de tema de episódio, quer indicar uma fonte, quer elogiar, quer criticar, quer discordar, estamos aqui para conversar! É só mandar um alô pro nosso email contato@institutomol.org.br, nós vamos adorar receber seu feedback e vamos responder com gosto!

 

Artur: E por hoje é isso pessoal, semana que vem estamos de volta! Esse podcast é uma produção do Instituto MOL, com apoio do Movimento Bem Maior. A produção é de Gabriela Portilho, e o roteiro final e direção é de Vanessa Henriques e Ana Azevedo, do Instituto MOL. As colunas são de Rafaela Carvalho e Duda Schneider, da Editora MOL. A edição de som é do Bicho de Goiaba Podcasts. Esqueci alguém?

 

Roberta: Não, acho que é isso…

 

Artur: Então é isso!

 

Artur e Roberta: Até mais!

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