07/03/2022
Transcrição EP #43 — Especial IDIS, com Eliana Sousa Silva

Roberta: Cada vez mais ouvimos falar de institutos e fundações comunitárias, isto é, associações que atuam em prol de um território geográfico limitado: um bairro, cidade, região… Mas como será que isso funciona na prática? Vamos mergulhar na experiência da Redes da Maré, organização dirigida pela Eliana Sousa Silva, nossa convidada especial pro papo de hoje no retorno do nosso Especial IDIS! Eu sou Roberta Faria…

 

Paula: Eu sou Paula Fabiani…

 

Roberta: Vamos falar sobre filantropia comunitária no episódio de hoje do…

 

Paula e Roberta: Aqui se faz, aqui se doa! 

 

Roberta: Está começando mais um Aqui se faz, Aqui se doa, seu podcast semanal sobre cultura de doação produzido pelo Instituto MOL com apoio do Movimento Bem Maior e divulgação do Infomoney. Bem-vinda à nossa segunda temporada, Paula! Que saudades!

 

Paula: Ai, nem me fale! Obrigada por estar aqui de novo, é um prazer estar fazendo esse podcast com vocês!

 

Roberta: Alegria é te receber! O papo de hoje vai ser muito legal, e fala sobre um modelo que ainda é pouco conhecido no Brasil, mas que tem se consolidado cada vez mais internacionalmente como um importante arranjo institucional para o desenvolvimento de territórios específicos. E a Paula é uma enorme especialista nisso!

 

Paula: Nossa, Roberta, Institutos e Fundações comunitárias são uma paixão! São organizações que podem ser associações ou fundações que atuam em prol de um território geográfico delimitado, como você já mencionou, seja ele um bairro, cidade ou região, mas sempre com visão de longo prazo e buscando o impacto sistêmico para o desenvolvimento dessa região. São protagonistas da interlocução entre organizações e iniciativas sociais com os doadores, sociedade civil e poder público, promovendo sempre a transparência e engajamento. 

 

Roberta: Estas organizações atuam como grantmakers, ou seja, financiam projetos e iniciativas sociais em diversas causas para endereçar as demandas e prioridades da região. Pode ser projeto de educação, de saúde, de desenvolvimento econômico, de geração de renda… Cabe tudo! Elas também fortalecem o terceiro setor com capacitações e apoio técnico para as organizações locais, investem na produção de conhecimento, métricas para acompanhar esse desenvolvimento e fomentam a cultura de doação no território onde atuam para que a própria comunidade seja doadora e incentivadora dos projetos sociais que têm ali. Estamos falando aqui de um modelo que investe no potencial da própria comunidade para identificar o que é melhor e mais prioritário para si e viabilizar soluções eficazes.  

 

Paula: Pois é, Roberta. De acordo com um levantamento realizado pelo Community Foundation Atlas, existem mais de 1.800 institutos e fundações comunitárias no mundo, e juntas, essas organizações movimentam mais de USD 5 bilhões todos os anos. Para fortalecer este movimento no Brasil, em 2020, o IDIS criou o programa Transformando Territórios, em parceria com uma fundação americana chamada Mott.

 

Roberta: Uau, Paula, que massa! Quanto dinheiro, hein? Eu tô curiosa pra saber mais! Vamos chamar logo a nossa convidada? 

 

Paula: Vamos lá! A Eliana Sousa Silva é fundadora e diretora da ONG Redes da Maré, curadora e organizadora do Festival Mulheres do Mundo – WOW Rio e autora do livro Testemunhos da Maré (2012).

Ela é Doutora Honoris Causa pela Queen Mary University of London e doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/Rio). Eliana é professora aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e também professora visitante do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP).

 

Roberta: Ao longo de sua trajetória, Eliana recebeu diversos prêmios, entre eles o Itaú Cultural 30 anos (2018), o Mulher do Ano – área social, do Rotary Club do Rio de Janeiro (2005), o Mulher Claudia – trabalho social, da Editora Abril (2004) e o Ashoka Empreendedores Sociais (2000). Um baita mulherão! Bem-vinda, Eliana, ao nosso podcast, obrigada por aceitar nosso convite.

 

Eliana: Muito obrigada! Eu que agradeço! Um prazer poder partilhar a experiência da Redes da Maré com vocês!

 

Paula: Eliana, que bom te ter aqui! Fico muito feliz da gente estar juntas nessa conversa! Você lidera uma organização em um dos principais complexos de favelas no Rio de Janeiro. Antes de entrarmos no tema de nossa conversa, que é filantropia comunitária, gostaria que você falasse um pouco sobre este território e sobre a atuação da Redes da Maré.

 

Eliana: Bom, Maré realmente é o maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro. Na verdade, a gente fala que esse nome “Maré” agrega 16 diferentes realidades: não é uma coisa homogênea. A gente costuma falar que não é Maré, são Marés, porque são 16 favelas que conformam diferentes realidades, apesar de terem muitas questões, principalmente sociais, para serem enfrentadas, em comum. A Maré é uma região que fica na parte central da cidade do Rio de Janeiro, entre a Zona Sul e a Zona Norte. Não tem como você vir ao Rio de Janeiro e não passar pela região da Maré: se vem de avião ou de carro, você passa, porque a Maré fica entre as principais linhas de acesso: a linha vermelha, a Avenida Brasil e a linha amarela, está do lado do aeroporto internacional do Rio e é uma região que agrega 140 mil pessoas em um raio de 4,5km. A gente tem um adensamento populacional significativo, porque são 47 mil domicílios. As primeiras favelas que se instalaram nessa região vieram da década de 40. Até a década de 80, a Maré agregava 6 favelas, e cada uma tinha o seu nome separado. Na década de 90 ou início dos anos 2000, a prefeitura do Rio agregou mais 10 conjuntos e por isso a gente tem 16 favelas. 

A Redes da Maré é uma organização que tem uma longa trajetória de atuação nesse conjunto de favelas e tem algumas características que tem a ver com a trajetória das pessoas que nasceram ou cresceram, como é o meu caso. Eu cresci em Nova Holanda, vim da Paraíba, cheguei com 6 anos aqui. A Rede nasce da experiência de algumas pessoas que moravam em algumas dessas 16 favelas e tinham outra característica: todos chegaram à universidade e tem uma longa trajetória de atuação em movimentos sociais locais. Por exemplo: fui presidente da associação de moradores da Nova Holanda na década de 80. Isso conforma bastante a ideia, pensamento, pressuposto que tivemos quando nos juntamos para criar a Redes da Maré. Também diz muito sobre o objetivo, a missão da Redes da Maré: justamente, de maneira muito objetiva, ser uma organização que tem um foco territorial grande — todo nosso trabalho é pensar projetos que, de maneira estruturante, impactem esse território de 16 favelas onde moram 140 mil pessoas. Esses projetos, na realidade, entendemos que são iniciativas fundamentais para que a gente estabeleça direitos dessa população de 140 mil pessoas. Pensando na cidade do Rio: como a gente cria uma isonomia, ou seja, uma igualdade? Como a gente enfrenta a desigualdade em relação ao acesso a esses direitos?

 

Roberta: Incrível, Eliana! É um trabalho imenso, um desafio gigantesco e também, como todos os desafios gigantescos, com muitas oportunidades e maneiras de atuar! Na pandemia, especialmente, vimos uma grande mobilização feita por vocês em muitas frentes. Gostaria que você falasse brevemente sobre como tem sido este enfrentamento que ainda não acabou e qual foi o papel da sociedade civil e da comunidade da Maré dentro desse contexto de grandes crises: sanitária, social e econômica que a gente continua a enfrentar.

 

Eliana: Na pandemia, a gente refletiu bastante sobre como poderia ser realmente efetivo no enfrentamento. Ninguém sabia realmente o que ia acontecer, como a gente ia lidar. Se a gente pensar em uma região como a Maré, que tem 16 favelas, toda uma demanda para efetivar direitos, o que poderia acontecer com essa população? Isso foi uma coisa que preocupou muito a gente no início e o pensamento que veio e acabou gerando todo o trabalho que a gente fez foi muito refletir como ser efetivo a partir da coerência que tentamos fazer o trabalho que a gente faz. 

Como não fugir da coerência que é pensar a questão da pandemia e a demanda que ela trouxe, de uma maneira também estruturante e que ajudasse a gente a entender mais como precisamos atuar. Na verdade, tentamos ver como uma oportunidade concreta de olhar para os segmentos populacionais que temos nesse conjunto de 16 favelas e 140 mil pessoas. Quais são os segmentos que estão mais negligenciados pelo Estado? A primeira questão que fizemos foi, justamente, olhar para um projeto que temos dentro de um eixo (a gente trabalha a partir de 4 eixos, que são campos temáticos: educação, arte, cultura, memória e identidade, desenvolvimento territorial e segurança pública). Dentro do eixo de desenvolvimento territorial, a gente tem um projeto que foi o “Censo da Maré”, uma pesquisa que aprofunda toda a característica habitacional e de vida da população. Percebemos que ali já se apontava que a Maré, nesses 47 mil domicílios, tínhamos 6 mil famílias abaixo da linha da pobreza, sem considerar alguns elementos para olhar a pobreza no Brasil. Então, a gente resolveu que não ia fechar as portas, simplesmente, trabalhar de forma remota.

A gente estaria aqui, presente, e tentaria entender nesse momento quais demandas elas vão ter e se colocou à disposição em um dos espaços que nós temos, que é o Centro de Artes da Maré, que fica muito próximo à Avenida Brasil, é um lugar de fácil acesso. A partir da análise dessas 6 mil famílias que a gente entendeu que já eram famílias que, por exemplo, viviam em situação de insegurança alimentar. A primeira ação nossa foi entrar em contato com essas famílias para entender como elas estavam vivendo, porque antes as pessoas criam estratégias de sobrevivência: vão para porta de restaurantes, vão pedir na rua e, nesse momento, tudo estava fechado. A primeira ação foi criar uma campanha que chamou “Maré diz não ao Coronavírus” que agregou algumas áreas possíveis que a gente conseguiu articular recursos e ações concretas. 

Uma delas foi a segurança alimentar: nós tínhamos duas frentes, uma para essas famílias que já estavam sendo negligenciadas e as outras que começaram a procurar. Eram pessoas que eram faxineiras, fazem biscates e perderam essas coisas e passaram a demandar também alimentos. A gente criou uma campanha que distribuía cesta de alimentos e acabou conformando um número não de 6 mil, apenas, mas de 18 mil famílias. A gente atendeu organizando e entregando as cestas a partir de uma parceria com a Fundação Oswaldo Cruz, a gente entendeu que protocolos precisava desenvolver para não se contaminar e começou um trabalho diário de entregar essas cestas, cadastrar essas famílias. Muitas não tinham telefone, muitas não tinham CPF para acessar o benefício do governo. Então, a gente começou um trabalho muito direcionado para famílias negligenciadas. 

Outra coisa que a gente conseguiu, na época, foi fazer um sistema de inteligência para que essas famílias possam, agora quando a pandemia está em uma outra fase ou depois que passar, a gente possa discutir uma política pública ou o que fazer com essas famílias. Dentro dessa ação de segurança alimentar, a gente produziu junto com a Casa das Mulheres da Maré, refeições diárias e entregava 300 refeições à população de rua e à população usuária de crack. Aqui na Maré tem uma cena de crack, então todos os dias a gente entregou — de 28 março, quando começou, até dezembro do ano passado (2020), a gente continuou com essa ação.

Outra ação teve a ver com a frente de saúde. Pessoas começaram a reportar pessoas que estavam se contaminando na sua rua e não sabiam o que fazer com isso. As ideias dos protocolos da pandemia para pessoas que moram em favelas, essa informação não serve. No sentido de que as pessoas não têm condições materiais para se isolar, são famílias grandes que moram em 50m2. A maioria das casas, quando tem 50m, é uma casa maior. E pessoas que moram em diferentes gerações na mesma casa. Então, precisou criar uma informação de como as pessoas poderiam, mesmo nesse contexto, se cuidar. Foram criadas várias ações do campo da saúde. Então, a gente meio que criou uma equipe interdisciplinar com enfermeiros, psicólogo, assistente social. Abriu um canal de whatsapp para as pessoas mandarem mensagem e informar: “na minha rua tem alguém que está doente”. E aí, a assistente social entrava em contato, encaminha para as clínicas da família, que também estavam em uma situação muito difícil no Rio.

Esse trabalho que a gente começou a organizar e toda a semana saia um boletim com essas informações que chegavam. Os moradores começaram a reportar. Esse trabalho acabou gerando outro projeto que, na época, a gente conseguiu patrocínio do Todos pela Saúde, a Fundação Oswaldo Cruz, algumas organizações que estavam trabalhando a questão da pandemia e criamos o projeto Conexão Saúde que passou a fazer testagem no espaço da Redes da Maré diariamente. Esse projeto continua até hoje e a gente começou a fazer controle, porque quem testou positivo ia para outro projeto que a gente criou chamado “Isolamento seguro”, no qual essa pessoa, quando testava positivo, tinha um articulador comunitário que ia na casa dela, chamava todos da família para testar e essa pessoa recebia todas as instruções sobre uso de máscara e ficar isolado, e levamos duas refeições diárias para essa pessoa fazer a quarentena sem fazer nada.

Dentro disso, tem uma outra área que a gente criou foi de comunicação para enfrentar a questão da pandemia: todos esses protocolos foram transformados em uma linguagem mais acessível e dando exemplo na realidade das pessoas do que elas poderiam fazer. Como aqui as pessoas ficam muito na rua, a gente fez parceria com outra ONG que colocava pias no meio da rua. Então, a gente colocou muitas pias espalhadas na rua para a população de rua, colocou galões grandes com sabão. Conseguimos um recurso para produção de máscaras, 90 costureiras da Maré produziram quase 500 mil máscaras que foram distribuídas. Toda semana eram quase 5 mil máscaras que elas produziam. A Maré, hoje, é a favela do Rio que tem menor número de pessoas internadas, isso já faz dois meses, por conta da COVID.

E tem uma questão, que é a última da vacina: a Vacina Maré. Uma campanha que, por conta da gente estar fazendo esse trabalho localizado, tão direcionado, acabou conseguindo uma parceria da Fiocruz com a prefeitura do Rio, que a Maré fosse vacinada antes do calendário da cidade. Todo mundo acima de 18 anos. A Maré, hoje, é a favela do Rio que tem 97% da população com a primeira dose e 72%, vi o dado ontem, que tomaram a segunda dose. Então, é um trabalho muito intenso de não negligenciar com a questão da saúde da população.

 

Paula: Nossa, incrível! São tantas ações! Acho que esse olhar sistêmico, você usou até a palavra estruturante, de olhar para os problemas de forma interligada, vou pegar este gancho e entrar no tema deste episódio – a filantropia comunitária, no desenvolvimento de Fundações e Institutos Comunitários. Em alguns momentos, você trouxe a questão do empoderamento da comunidade, e vejo nas ações que vocês têm sempre o envolvimento das pessoas que habitam nesse território. E mencionou muitas parcerias. Eu sei que vocês já fizeram, no passado, apoio de outros projetos locais de outros coletivos e organizações. Mas, não me esqueço de uma conversa que a gente teve da sua preocupação de deixar um legado, deixar algo perene nesse território que possa cuidar da Maré não só apoiando a Redes da Maré, mas apoiando outras instituições. A gente está junto, um pouco, nessa história com o apoio do Transformando Territórios, do IDIS. Sei que você está criando o Fundo Comunitário da Maré, que fomentará e financiará diferentes iniciativas sociais, causas e projetos que operam no território da Maré. Gostaria que você falasse um pouco sobre este modelo e porque ele é um pouco diferente do que vocês fizeram até aqui.

 

Eliana: Uma das coisas que esqueci de falar sobre as ações da pandemia foi, justamente, a chamada pública para artistas que, na pandemia, foram diretamente afetados. A área da cultura, de maneira geral, e da arte foram muito afetadas. A gente fez uma chamada pública e selecionou 33 experiências de artistas para desenvolverem projetos na pandemia.

Em relação à Fundação Comunitária, do Fundo Comunitário. É uma experiência que a gente vêm desenhando, aprendendo e entendendo como isso pode ser algo que fica desse trabalho todo, de tantos anos, de tanta profundidade. Porque a gente entende que é uma forma de, justamente, poder ampliar o nosso trabalho para além das Redes da Maré. A gente tem uma demanda muito forte, hoje, de deixar um legado em relação à questão ética, de valores, da maneira como a gente trabalha… Para você ter uma ideia de como a gente preserva as ideias principalmente, e tudo o que a gente vem construindo ao longo do tempo, porque a Maré é maior que 96% das cidades brasileiras. Se a Maré fosse uma cidade, seria de médio porte. Então, mesmo a gente sendo uma organização da sociedade civil, para a gente ter um resultado em relação ao trabalho que a gente faz, para impactar essa realidade, a gente tem que ganhar uma escala maior do que o que a Redes da Maré fez até hoje.

Até hoje, a gente vem construindo nossos projetos de pesquisa, de ação e de incidência em política pública muito a partir de projetos. É assim que a gente capta recursos, traz parcerias… A gente entende que poder ter uma Fundação Comunitária que vai olhar para esse conjunto de favelas e iniciativas a partir de outra dimensão, de outra possibilidade de pegar uma demanda social que a gente tem aqui e trabalhar em rede (que é o próprio nome que o Redes da Maré tem). Trazer e investir nesse capital humano e social que essas organizações, lideranças e novas lideranças que vem se formando muito a partir do trabalho que a gente faz. Pré-vestibular é um exemplo disso, a gente começou em 97.

Na época, a Maré era uma região que tinha menos de 0,5% da população na universidade. Esse pré-vestibular existe até hoje, existem outros na região e a gente já tem quase 4% da população da Maré com acesso à Universidade. A gente não consegue isso se continuar atuando apenas com projeto, a gente precisa, realmente, fomentar uma rede de projetos, ou de lideranças, ou de iniciativas, ou de coletivos que possam, a partir de uma temática, de um direito que não está estabelecido, criar essa possibilidade de inventividade para enfrentamento desse problema. Essa é uma questão.

A outra: tem uma preocupação grande nossa de como a gente contribui na formação de boas lideranças, no sentido de saber elaborar um projeto e defendê-lo, de fazer uso honesto, claro e transparente dos recursos que são trazidos. Como a gente presta conta disso? A gente também quer contribuir para essa ideia de qualificar, vamos dizer assim, a sociedade civil local para que possamos dar um salto e sair da ideia da favela como um lugar de ausências e trazer a ideia da potência que é a favela. Também a ideia de como a gente enfrenta todo o preconceito, a percepção negativa que se têm sobre a favela, a ignorância geral que se tem sobre a favela e a periferia, possibilitando novas narrativas e novos olhares sobre as pessoas que moram nas favelas. Entende?

 

Roberta: É um projeto incrível! Fico pensando nos nossos ouvintes… Boa parte é do terceiro setor também. Para quem escuta e gostaria de começar a pensar em fazer isso nas suas realidades locais. Na prática, o que isso vai significar? Vocês pretendem captar quantos milhões? Isso funciona como se fosse um endowment? Tem comitês? Como é a mecânica disso na prática, que você vislumbra.

 

Eliana: Como eu disso, a gente está há 4 anos tentando entender o melhor modelo para esse projeto. O IDIS vem e é uma organização que a gente tem parceria desde o primeiro momento em que começamos a pensar. E a gente vem aprendendo com outras organizações que já existem! Isso não é muito comum, infelizmente, no Brasil. A ideia de as pessoas doarem, pensarem em investir em projetos realmente que tenham interesse em mudar territorialmente uma região. A gente vem se juntando à algumas redes de filantropia, a própria Rede Filantropia, o IDIS, para justamente entender como isso vem sendo feito no Brasil.

No nosso caso, a gente tem um estatuto, já tem um documento que rege a ideia do que seria esse Fundo ou essa Fundação Comunitária. Ela tem esses dois lados: fortalecer o trabalho da Redes da Maré e investir em novas lideranças, coletivos e instituições. Todo o recurso vai para essas frentes de trabalho, que precisamos. A gente tem um comitê de investimento: são pessoas que tem um reconhecimento público sobre essa questão de como fomentar o bom uso do recurso, no sentido de não só da utilização, mas como investir e fazer o dinheiro crescer. É um endowment, na verdade. A gente estabeleceu uma primeira meta de 20 milhões, foi um cálculo feito por três pessoas, economistas. O nosso estatuto tem um Conselho de Investimento e um Conselho de Projetos, que depois vai ajudar a gente a priorizar: o que a gente vai priorizar em um contexto como o da Maré? No que a gente avançou até agora?

Realmente, a gente quer investir em mudanças estruturais. O que faria uma mudança estrutural? O que a gente precisaria criar, inventar? Essa coisa muito a partir dos moradores, a partir da mobilização social. É um endowment, a gente tem uma conta bancária. O Banco Santander tem uma linha de investimento e de acompanhamento de fundos patrimoniais. O dinheiro que a gente está recebendo, está colocando dentro dessa conta. A gente começou com uma primeira doação, de uma doadora individual que é a Beatriz Brascher — ela autorizou, inclusive, a gente dizer que ela fez a primeira doação. Ela mesma tem ajudado para que novos doadores cheguem para essa primeira etapa.

É a primeira vez que a gente está fazendo algo nessa dimensão, vamos dizer assim. Porque a gente precisa juntar esse valor da primeira meta para poder começar a usar. Foi feito um cálculo para entender quanto a gente precisaria para começar uma frente como essa de incentivar novas organizações, novos projetos dentro da Maré. Vamos começar a operar, começar a aprender. O Fundo já está sendo registrado, vai ter um CNPJ específico, a partir de novembro agora, separado da Redes da Maré, e a gente vai ter um conselho em que a Redes da Maré vai estar junto podendo influenciar no próprio uso do recurso.

 

Paula: É muito bacana mesmo, esse trabalho em rede e vocês terem a coragem de investir em novas lideranças e iniciativas. Ou seja, fomentar outros! Porque é assim que a transformação no território vai acontecer! Adorei essa ideia de ajudar a qualificar a sociedade civil local. A gente precisa de novas lideranças nesse país! E acredito que elas vão imergir de nossos territórios mais vulneráveis. Fica claro que essa solução dos desafios dos territórios passa por essa qualificação: ter um bom monitoramento, uma avaliação de resultados, uma boa prestação de contas… Acho que tudo isso é muito importante para fazer esse casamento entre grandes doadores e trazer recursos da própria localidade para essas ações, o que dá legitimidade para a organização. E por fim, Eliana, queria que você desse um conselho para líderes e organizações que gostariam de trilhar esse caminho que vocês estão trilhando. A gente tem muitas regiões do país que tem territórios que poderiam passar por esse processo de um bom diagnóstico e o enfrentamento de seus problemas de forma sistêmica, porque a gente vai elevar a qualidade de vida das pessoas. O que você dá de conselhos para quem quer trilhar esse caminho?

 

Eliana: Não sei se seria conselho, mas posso partilhar um pouco do que sinto desse processo. Tem muitos projetos interessantes Brasil afora, tem muitas pessoas que dedicam a sua vida a fazer projetos sociais. A gente precisa pensar se quer dar esse passo. Como eu disse, vamos para 4 anos tentando estudar essa experiências, então tem um tempo, não é uma coisa rápida. Precisa ter algo orgânico: o que está escrito ali tem que ser a verdade, tem que ser o que realmente estamos vivendo no momento que se está pensando a possibilidade de fazer um fundo comunitário, uma Fundação Comunitária. A primeira coisa é realmente pensar qual a melhor opção para o seu lugar, seu projeto, sua organização, seu território.

Não tem uma ideia comum para todos: a ideia de ter um fundo é comum, mas vai se adaptar a cada realidade.

 

Paula: Cada realidade vai ter seus desafios, né?

 

Eliana: Sim, acho que precisa ser muito verdadeiro naquilo que se quer: eu quero realmente deixar um legado aqui. Tenho que passar por questões que eu passei, estou desde 13 anos, tenho 59, nesse processo de estar envolvida em luta comunitária, em lutas coletivas. Fico pensando que tem um aprendizado que precisa ser passado e trocado. Reconhecer isso não é uma questão só formal, de vida, onde está a verdade com o seu projeto. Para mim isso é uma verdade: preciso passar tudo o que aprendi, as pessoas não precisam passar por tudo o que passei. Os desafios, dificuldades…. O Fundo vai dar essa perspectiva de ter outros desafios. A gente precisa passar por isso. Então, não sei, a maior experiência que posso dizer é: sejam verdadeiros naquilo que vocês realmente querem fazer e aí vai vir. As coisas tem que ser inventadas, não estão prontas.

 

Roberta: Muito boa essa fala de que as coisas tem que ser inventadas e não estão prontas. Adorei! Querida, muito obrigada pela sua presença, por aceitar o convite! Você trouxe pontos muito importantes, acho que trouxe bons exemplos: você cresceu dentro da Maré, a sua história se confunde com a da comunidade, o seu ativismo se confunde com a história da organização. Está tudo junto e misturado. E olhar esse momento duplo de legado e de comprovar — a pandemia comprovou muito isso — havia tanta gente bem intencionada: empresas e doadores querendo ajudar e ficou claro que não é possível ajudar sem envolver a comunidade porque é na comunidade que residem os conhecimentos e soluções para aquilo que se enfrenta. Muito bonito ver esse projeto nascer, espero que você volte aqui para contar para a gente o resultado dele!

 

Eliana: Eu queria dar uma dica: quem puder e tiver interesse em conhecer melhor a campanha, a gente fez um relatório no final do ano com tudo o que fizemos e isso acabou virando uma publicação que está no site redesdamare.org.br. Você vai em publicação, baixa o livro. Tem na Amazon também e conta toda a nossa jornada.

 

Roberta: Massa! Muito inspirador!

 

Paula: Eu também queria agradecer muito você ter aceitado o nosso convite para contar! Eu não conhecia esse pedaço da pandemia, conhecia o antes quando fui te visitar e conhecer e fiquei realmente muito impressionada com o trabalho de vocês. E para quem deseja saber mais sobre o conceito e conhecer exemplos de outras organizações que atuam para o desenvolvimento de territórios, convido para conhecer nossa iniciativa de fomento à institutos e fundações comunitárias no site www.transformandoterritorios.org.br

 

Roberta: Paula, em nome do Instituto MOL, agradeço também a sua presença aqui nesse bate-papo, e também ao IDIS por essa parceria deliciosa!

 

Paula: Eu que agradeço! É sempre uma delícia estar aqui com vocês!

 

Roberta: Por hoje é isso, pessoal! Esse podcast é uma produção do Instituto MOL, com apoio do Movimento Bem Maior. A produção é da Luisa Lima, do IDIS, o roteiro final e direção é de Vanessa Henriques e Ana Azevedo, do Instituto MOL. A edição de som é do Bicho de Goiaba Podcasts. Até mais!

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