07/03/2022
Transcrição EP #54 — Organizações da Sociedade Civil: histórico e futuro

Artur: As organizações da sociedade civil fazem um trabalho muito importante na sociedade (disso você já sabe, né?): elas reúnem muita gente indignada (no bom sentido!) que arregaçam as mangas e fazem, muitas vezes, o que ninguém quer fazer, porque acham que é trabalho do governo, coisa do Estado, não tem nada a ver comigo. Essas organizações olham para quem está à margem e trazem novas perspectivas e soluções complementando o trabalho do Estado. Pra gente honrar esse trabalho tão bacana, vamos conversar hoje com o sociólogo Domingos Armani, que tem muito a dizer sobre o histórico e construção do terceiro setor no mundo e no Brasil e que pode arriscar alguns palpites sobre o futuro desse setor.

 

Eu sou Artur Louback

 

Roberta: Eu sou Roberta Faria

 

Artur: E a história e o futuro das organizações da sociedade civil é o tema de hoje no… 

 

Artur e Roberta: Aqui se Faz, Aqui se Doa!

 

Roberta: Está começando mais um Aqui se Faz, Aqui se Doa, o seu podcast semanal sobre cultura de doação produzido pelo Instituto MOL, com apoio do Movimento Bem Maior, da Morro do Conselho Participações e da Ambev, além da divulgação do Infomoney. 

 

E o assunto de hoje é o que a doação tem a ver com história, curiosidades e o futuro das OSCs no Brasil e no mundo…. Aproveitando que estamos no mês de comemoração do Dia Mundial das ONGs. 

 

É ONG ou é OSC, Artur?

 

Artur: Olha é uma sopa de letrinhas que fazem confusão na cabeça de muita gente. Antes da gente opinar sobre isso, é melhor a gente ir direto a fonte. Alexa, digo, Rafa, explica pra gente essa história toda: o que é ONG, o que é OSC — afinal, o que significa esse conjunto de letras?

 

Rafa Carvalho: O termo ONG ainda é muito usado, mas a figura da Organização Não Governamental não existe no ordenamento jurídico brasileiro. Por isso, o Marco Regulatório da Sociedade Civil, de 2014, criou o conceito jurídico de OSC, organização da sociedade civil, para regular as parcerias das ONGs com o poder público. As OSCs são entidades e grupos nascidos da livre organização e da participação social da população, que desenvolvem ações de interesse público sem visar ao lucro. Elas tratam dos mais diversos temas e interesses, com variadas formas de atuação, financiamento e mobilização.

 

Em resumo, é uma instituição, com CNPJ, que desenvolve projetos sociais com finalidade pública. Com o marco regulatório, as organizações podem ampliar suas capacidades de atuação e incorporar muitas de suas pautas à agenda pública. Na prática significa a mesma coisa que Organização Não Governamental (que é a sigla ONG, que a gente já conhece), mas atende aos requisitos legais do Marco para poder receber verba pública. Para isso, precisam seguir um cumprimento de metas, geralmente visando uma devolutiva social. 

 

Ah, mais uma informação: o marco regulatório criou também a figura da OSCIP, que é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, que está dentro do conceito macro de OSC, que a gente aprendeu agora. E uma curiosidade: o termo ONG vai continuar a ser usado, pois ele serve para identificar também associações e fundações. Estas não são consideradas, de acordo com a lei, como uma OSC. Deu para entender? Deu para se achar nessa dança de siglas? Qualquer coisa é só escrever para a gente, que a gente te ajuda! Eu sou a Rafaela Carvalho e toda semana eu ajudo a desvendar um termo importante para a cultura e doação. Até a próxima!

 

Artur: E depois tem gente que diz que o terceiro setor não é organizado! Uma organização só para criar um nome, né? Cheio de regras e tudo!

 

Roberta: Pois é Artur, o terceiro setor nasceu de uma necessidade da sociedade, em grande parte devido a falta de atuação do poder público nas áreas sociais e, ao longo dos anos, foi se desenvolvendo e se regulando. E esse é um trabalho que nunca termina. E olha que essa história é bem longa, viu?

 

Artur: Sim….. e o próprio nascimento das OSCs ou ONGs tem algumas várias versões, né? Tem gente que fala que surgiu com a criação da ONU, em 1940. Já outras pessoas dizem que a primeira organização da sociedade civil surgiu na Idade Média. Uma das primeiras organizações que temos registro é a King’s School, no Reino Unido, uma escola fundada por Santo Agostinho em 597 quando aqui, literalmente, tudo era mato e é considerada a escola mais antiga ativa no país. 

 

Aqui no Brasil, a gente tem como registro mais antigo a Santa Casa de Misericórdia de Santos, fundada em 1543, como uma das primeiras organizações sem fins lucrativos. Mas, como vocês vão ouvir mais para frente, na entrevista com o Domingos Armani, tem ainda outras versões dos precursores.

 

Roberta: Tem quem diga que as primeiras ONGs só surgiram no século XIX, quando o movimento antiescravagista levou à criação de organizações como a Sociedade Antiescravagista,que surgiu nos Estados Unidos e pode ser considerada a primeira ONG internacional. Nessa mesma época surgiu a Cruz Vermelha, em 1850, após a guerra franco-italiana, e a Peabody Education Fund em 1867, nos Estados Unidos após a guerra civil americana.

 

Artur: Bom, vamos deixar nosso convidado falar um pouco mais sobre isso, porque ele é um entendido mesmo do assunto. O Domingos Armani é sociólogo e mestre em ciência política. Ele atua desde 1997 como consultor na área de desenvolvimento social e institucional, com longa experiência na condução e assessoria para processos participativos junto a organizações da sociedade civil, órgãos públicos e instituições internacionais. Domingos, seja bem-vindo ao Aqui se Faz, Aqui se Doa. Obrigado por aceitar nosso convite!


Domingos: É um prazer grande, Artur, poder estar aqui, falar com vocês e com o público que assiste os podcasts!

 

Artur: Domingos, nesse episódio a gente está fazendo um histórico do passado, presente e futuro das organizações da sociedade civil. Queria que você começasse contando um pouco de onde surgiram as primeiras organizações não governamentais, no Brasil e no mundo, e, principalmente, tentando responder por que a sociedade civil começou a se mobilizar para assumir algumas causas de interesse coletivo. 

 

Domingos: Legal! Uma pergunta que faz pensar… Se a gente for pensar quando surgiram as primeiras organizações não governamentais, em termos mundiais, poderíamos dizer que elas sempre existiram. Na história remota, nos primórdio, quando a gente fala em Idade Média, nos primórdios do cristianismo, falando do mundo Ocidental. Mas a gente pode falar do mundo Oriental também. A gente pode falar que elas sempre existiram, não com a forma atual, não com as denominações atuais, porque organizações da sociedade civil tem a ver com um tema fundamental que se chama solidariedade.

 

E solidariedade, agrupamentos de solidariedade, grupos de autoajuda, sempre existiram nas comunidades. A antropologia e a sociologia demonstram isso sobejamente, com muita evidência empírica. A arqueologia também tem indicativos… Então, a autoajuda, a ajuda mútua que é o espírito da solidariedade, que é o valor primordial das organizações, sempre existiu. Mas, modernamente, isso tem um boom muito importante pós-segunda Guerra Mundial. No mundo Ocidental, novamente, a Segunda Guerra propiciou, no final dos anos 1940 e início dos anos 1950, o surgimento de muitas organizações de solidariedade na Europa visando a reconstrução das ruínas em todos os sentidos, não só material, do que ficou da Segunda Guerra. 

 

Então, em muitos países da Europa Ocidental surgiram ONGs, que aí sim começaram a ter esse nome — esse nome é instituído em 1948, na ONU, abrindo para organizações que não eram os Estados (a ONU reúne Estados, obviamente) em alguns debates, algumas comissões de organizações que não eram Estados, então foram denominadas organizações não governamentais, essa é a origem do nome. No início dos anos 1950 começam a se constituir as grandes ONGs europeias, muitas delas que hoje são organizações que financiam, apoiam, organizações e projetos no Brasil e na América Latina, no hemisfério sul. Aí, tem um grande desenvolvimento.

 

Chegando ao Brasil, a gente vê que aqui também os escravos, tanto no período da escravidão, quanto no período de quilombos, de início de libertação e de resistência… O que eram os quilombos se não organizações de solidariedade, defesa e cuidado mútuo? E tem muitas organizações filantrópicas negras nesse período no Brasil, que vão se desenvolver entre os séculos XVI, XVII e XVIII. A gente vai falar da filantropia quando o Estado não era responsável pela questão social no Brasil, só começou a ser incorporado na Constituição praticamente no século XX, o social como dever do Estado. Antes disso, era a sociedade civil que cuidava da educação, da saúde e dos cuidados dos vulneráveis, desvalidos e pobres. Surgem as Santas Casas, uma série de entidades filantrópicas do campo religioso, típico do processo brasileiro.

 

Mais recentemente, a gente tem o período do regime militar, cuja resistência foi muito forjada nas franjas da sociedade, em espaços clandestinos, semi-clandestinos, às vezes ligados à Igreja, à sindicatos, à associações culturais e esportivas, onde se organizava, de alguma forma, a resistência possível no contexto daqueles anos 1970 até meados dos anos 1980. E aí também muito inspirados na solidariedade. Esqueci de falar dos imigrantes também, alemães, italianos… A imigração traz muito forte esse sistema de organização, de auxílio mútuo, de solidariedade que gera e influencia muito fortemente o sindicalismo brasileiro à partir da imigração. Tudo isso, muito brevemente, para destacar algumas pílulas de história.

 

O ponto mais recente desse, imagino que a gente vai seguir conversando sobre isso, as organizações que passam a defender direitos. Então, elas agregam a essa história de solidariedade, a experiência do regime militar de organizações terem que ser solidárias para defender direitos de pessoas, grupos, famílias ameaçadas, incorpora o elemento — no caso do Brasil, isso já havia em âmbito internacional — forte de defesa de direitos de quem está tendo seus direitos violados, está sofrendo violência, privação, agressões de todo tipo, do ponto de vista civil, político, social ou econômico. A gente vai acabar desenvolvendo no Brasil uma pujante sociedade civil, organizações da sociedade civil, desde o final dos anos 1970, que agrega o valor da solidariedade com a defesa de direitos.

 

Artur: Legal! E historicamente, seguindo um pouco nessa toada do que você está falando, dá para dizer que tem setores ou causas preferidas de cada época das organizações não governamentais? Ou sempre teve uma diversidade como a gente vê hoje?

 

Domingos: Acho que a diversidade das temáticas ampliou. No início, a solidariedade era bem mais… Por exemplo, no início da solidariedade internacional com o Brasil, o que se apoiava fundamentalmente era a ideia de construção de prédio, de postos de saúde, construção e equipamento de escolas, era a ideia de que apoiar era apoiar a infraestrutura. Banco Mundial, Estados Unidos apoiavam abertura de estradas, ferrovias, instalações para produção e armazenamento agrícola… Toda essa questão de estrutura logística, estrutura da sociedade. Era uma coisa muito material. Uma ideia muito reducionista, muito técnica, muito simplista do que era ajuda ao desenvolvimento. Com o tempo, isso vai se sofisticando. 

 

Em cada época tem causas e temas predominantes, alguns dizem que são modismos. Bom, tem alguns modismos, mas ao meu ver isso é secundário. O principal é perceber que cada época chama atenção para uma dimensão diferente, ou para algumas dimensões predominantes, do que são carências, dificuldades, desafios do desenvolvimento humano. Esses temas, que são marcados em algumas épocas, têm a ver com a evolução e a sofisticação da visão de mundo e de sociedade que as sociedades vão desenvolvendo. Tem a ver com o movimento da cultura, também.

 

Por exemplo, cultura, antes — há 40, 50 anos — era um tema zero em termos de desenvolvimento e de apoio ao desenvolvimento de uma sociedade. Hoje, isso já mudou. Pouco, do ponto de vista do quão importante é a cultura, mas muito se olhar o que não era. Tanto do ponto de vista de política pública, de investimento público no Brasil, quanto de valorização pela sociedade. Tem muitas fundações e institutos no Brasil que apoiam pesadamente a área da cultura. Tem institutos exclusivamente voltados para a área da cultura. Isso é um fenômeno fantástico, a gente não tinha nada disso! Essa é uma evolução da visão de mundo de que a cultura é enriquecimento da qualidade de vida das pessoas também. Não é só comer. Sim, comer é primordial, ter segurança alimentar, acesso aos direitos, mas a cultura também é fundamental.

 

Um bom outro exemplo, absolutamente gritante, é o meio ambiente. O meio ambiente não era parte do cardápio há algumas décadas. Começou a ser desde a primeira conferência, a gente teve a Eco92 no Rio em 1992, a primeira Eco foi a de 1972 em Estocolmo. Em 1972 se começa… Um pouco antes teve um encontro em Roma que discutiu, depois 1972 teve a primeira conferência e começa a andar um movimento de olhar para o ambiental de um jeito mais sério e estratégico. Mas até que nós fossemos descobrir que o ambiental não pode ser considerado sem olhar o sócio, e que a questão era o sócio-ambiental, é na interação dos dois que está a grande questão, foram décadas. E agora, estamos descobrindo que tem uma questão que tem o antropoceno! Quer dizer, a proposição de um novo período geológico.

 

Aproveito para dizer que minha primeira graduação foi geologia, então volta e meia tenho que retomar alguma coisa para comentar, 5 anos de curso de graduação. O Antropoceno é a interferência humana em uma época histórica que se faz sentir com evidências em todo o lado e as mudanças climáticas. São novos temas! Porque tem a ver com a sofisticação do nosso olhar do que a sociedade, o que é o mundo, o que são as sociedades, a sustentabilidade da espécie no planeta… Os temas vão tendo a sua marca de época e não é apenas modismo, tem a ver com a sofisticação das visões que estão circulando na sociedade e influenciam a visão de grandes financiadores, grandes doadores, de governos e da própria sociedade.

 

Artur: E uma coisa que varia com o tempo, Domingos, eu imagino que seja a visão que a sociedade tem sobre o papel das organizações da sociedade civil ou organizações não governamentais. Nesse momento que a gente está vivendo, especialmente aqui no Brasil, tem uma caça às ONGs muito motivada por uma narrativa do próprio governo. Dados do IPEA dizem que existem hoje mais de 800 mil organizações da sociedade civil (OSCs), embora menos de 3% delas acessem recursos federais. Ou seja, 97% das organizações que existem não acessam recursos do governo, embora exerçam funções que primordialmente são dos governos. Queria que você comentasse um pouco isso e comentasse um pouco desse cenário que as organizações estão vivendo hoje, o papel que estão representando na sociedade atualmente no Brasil.

 

Domingos: Vamos dar o nome da coisa, o nome da coisa é o seguinte: o papel das organizações da sociedade civil é um elemento importantíssimo na disputa pela qualidade da democracia. Dizendo de outra forma, a qualidade e profundidade da democracia que a gente pode ter também tem a ver com o debate do papel dessas organizações. Tem uma disputa real sobre qual o papel das ONGs. Se a gente pegar o período em que elas estavam fundamentalmente ligadas ao papel da solidariedade, elas ameaçavam muito menos. Então, essa disputa sobre o papel delas era muito low profile, uma coisa de baixa intensidade, ocasional com alguma denúncia de corrupção por interesses políticos partidários, alguma coisa de organização internacional que está entrando no Brasil e tem uma desconfiança —  no regime militar, ou logo depois. Coisas anedóticas, porque era solidariedade e quem pode ser contra a solidariedade ou organizações que promovem a solidariedade?

 

Agora, quando as organizações começam a incorporar o elemento da defesa de direitos e tem um marco importante nisso, que é o regime militar, e o segundo marco é a Assembleia Nacional Constituinte — que elabora entre 1986 e 1987, aprova e se promulga a Constituição de 1988, chamada de Constituição Cidadã. Ali foi um marco importante, porque todo o campo de ONGs no Brasil (acompanhei de perto, trabalhava em uma nessa época), articulado com Igrejas, Universidades e outras instituições, institutos e fundações, elaborava propostas, fazia pressão, fazia lobby dentro da Assembleia Geral Constituinte, advocacy com os parlamentares para influenciar as propostas que iriam ser apresentadas, eventualmente aprovadas e virar peça constitucional. E se teve muito sucesso! Tanto que essa é uma Constituição Cidadã, ela incorpora a perspectiva dos direitos de uma forma bem ampla em relação a história brasileira, pelo menos.

 

Esses marcos são importantes, porque à medida que as ONGs começam a tocar em direitos, não tocam mais só em solidariedade, começam a entrar em terreno minado da disputa de interesses em relação a direitos.

 

Artur: Perfeito. Um tema muito recorrente aqui no nosso podcast, ainda mais porque ele surgiu durante a pandemia, foi o boom da filantropia, especialmente no primeiro ano da pandemia. O crescimento dos recursos por, principalmente grandes investidores privados, grandes empresas, de estabelecer o que estão falando de ESG, termo que tem se usado mais dentro das grandes empresas. Queria que você falasse um pouco dessa nova onda se você acha que veio para ficar ou se é muito relacionado a esse fato episódico.

 

Domingos: Esse é um tema muito complexo, né? Acho que a gente tinha que esperar mais tempo para ver o que está acontecendo, mas queria lembrar que a gente veio da responsabilidade social empresarial, depois veio a questão da sustentabilidade — as empresas tinham que ter diretor, relatório de sustentabilidade, preocupações, compromissos. A gente tinha os Objetivos do Desenvolvimento do Milênio, agora temos os ODSs e agora chegamos a ESG, essa nova noção. Vejo que tem três dimensões.

 

Uma delas é que o padrão de capitalismo no mundo está desafiado a avançar e se sofisticar. Porque a gente está, pela primeira vez, como espécie, ameaçados no planeta. A espécie não diferencia muito a classe: as implicações e o ritmo é diferente para cada classe social, obviamente, mas a ameaça é global. Por enquanto, não dá para pegar uma nave e ir morar em Marte. Então, tem um elemento de que sim, o capitalismo está pressionado, do ponto de vista do tema das mudanças climáticas, inclusive eticamente. Qual é a resposta desse modelo de economia e de desenvolvimento chamado capitalista para essa questão? Então, está cada vez mais pressionado a dar respostas minimamente decentes, não pode não considerar.

 

Aí tem um lugar de disputa dos rumos do capitalismo. O Brasil fez experimentos da economia, testando algumas coisas, outros países fizeram outras… Os países nórdicos têm mais avanço em ter um capitalismo menos pior, que integra e incorpora melhor alguns elementos de meio ambiente, de dimensão humana. Ainda é capitalismo, é o que nós temos, mas é uma versão bem mais aceitável do que o que temos no Hemisfério Sul, na América Latina. Tem um campo de disputa, acho importante reconhecer. Quem tem interesse na sociedade civil, influencie, seja sujeito. Acho importante pensar nas organizações da sociedade civil como sujeitos nessa disputa que impulsionam, exigem, cobram o capitalismo que nós temos.

 

Inclusive, a partir da conscientização do consumidor. A pressão dos consumidores é uma faceta dessa pressão sobre as empresas do mundo corporativo. Então, tem uma disputa real. Tem empresas que, genuinamente, abraçam essas causas. Especialmente algumas grandes empresas internacionais e nacionais (no Brasil). Abraçam, quero dizer, veem nisso um propósito consistente. Agora, é uma minoria, na minha visão. Não tenho pesquisa na mão para falar, mas a maioria delas, infelizmente, faz jogo de cena e marketing em qualquer dessas siglas, não importa qual tu crie. Faz marketing, computação, e tenta construir ativos e percepção pública mais favorável, mais positiva da sua reputação, mas aquilo não é sério.

 

É importante distinguir o joio do trigo, porque tem muito joio e pouco trigo nessa jogada. Embora, a gente tem que reconhecer que tem empresas que têm compromisso sério, mas ainda são muito poucas. A esperança é que há uma disputa. Há algo em movimento no capitalismo, no campo das elites e trata-se de nós, da sociedade civil, junto com os governos quando possível municipal, estadual e federal, exercermos crescente pressão e exigência sobre o padrão de economia, de empresa que precisamos no Brasil. A gente viu muita solidariedade na pandemia, tu mencionaste, por parte das grandes empresas, mundo corporativo, institutos, fundações foram muito importantes em canalizar apoio e solidariedade, minimizar sofrimento. Seria fantástico se tudo se mantivesse, mas com esse viés de apoiar também a defesa de direitos e não só a solidariedade no pior momento — o que também é muito louvável, obviamente, ainda mais no momento da pandemia. Se isso seguisse sendo canalizado para causas fundamentais que interfiram no modelo de desenvolvimento do país.  

 

Artur: E a população, Domingos? Principalmente as novas gerações que, aparentemente, tem levantado bandeiras como nunca. De fato, estão vindo gerações mais conscientes e solidárias? Ou simplesmente agora elas têm os canais para se comunicar, então fica mais fácil parecer engajado?

 

Domingos: Boa! Nessa, estou um pouco mais otimista que na resposta anterior… Acho que sim, a nova geração vem mais consciente. Eu olho, em primeiro lugar, para o meu círculo familiar amplo, 30 pessoas que formam irmãos, tios, sobrinhos, fico olhando gerações e fico observando. Mas posso olhar amigos e filhos de amigos, pessoas que tenho relações no Brasil de trabalho e fraternas, diferentes visões e que conheço a família. Trabalho muito com grupos jovens, novo ativismo, acompanho muitas organizações dos chamados novíssimos movimentos sociais em São Paulo, em Recife, na Amazônia, às vezes… E eu diria que a gente tem uma nova geração que é bem diversa, obviamente, de classe social, região, etc.

 

Acho que a juventude vem com uma pegada muito mais firme em termos de exigências e padrões do que espera de uma sociedade minimamente decente. Incluindo o meio ambiente, que é um elemento de zelo, para essa dimensão humana, com mais carinho. Focar mais no que é uma sociedade humana, o que é cidadania, meio ambiente… Nem todos vão fazer disso militância, mas não fazer disso foco de ativismo não quer dizer que não haja consciência que se posiciona no mínimo na hora de consumir ou de fazer algumas escolhas. 

 

Tem uma coisa da primeira parte da outra pergunta, tem muitos fundos financeiros internacionais que estão criando parâmetros do que se chamava antes de investimentos éticos, e agora tem outras denominações. Mas toda essa questão de ESG está influenciando mudanças climáticas, na seleção e canalização de grandes recursos em fundos de investidores a nível global. Quando tu vê isso acontecendo, você vê que, de fato, a questão ambiental e climática está sendo crescentemente levada a sério, ainda que com muitos negacionistas e empresas fazendo apenas marketing. Mas tem algo se movendo.

 

O problema desse movimento é o ritmo. A gente vê na COP26, agora, e já tinha visto em outras: é muito pouco, muito tarde — como diz o ditado em inglês — é muito pouco, muito lento. De novo, a gente vê a fragilidade da sociedade civil: a gente não consegue fazer força para acelerar esses processos o quanto desejável.

 

Artur: Bom, Domingos, ótimo! Ótimo papo, mas nosso tempo é curto aqui, então queria agradecer muito pela aula fantástica que você deu. E deixar as portas abertas para sempre que tiver novos assuntos ou novas colocações a dividir com o mundo, seja sempre muito bem vindo no nosso programa.

 

Domingos: Foi um prazer muito grande! Queria, talvez, falar uma coisa que me parece muito importante nesse momento para quem está se aproximando ou não conhece tanto esse campo das organizações não governamentais, ou organizações da sociedade civil — como às vezes a gente denomina. Os valores que dão sustentabilidade a essas organizações: solidariedade, dignidade humana, direitos, democracia… Esses valores estão sendo enfraquecidos na sociedade brasileira. O Brasil, hoje, dá menos valor à solidariedade, ainda que tenha tido um pico de recuperação durante a pandemia, acabamos de comentar isso. Mas vinha dando menos valor e dando muito mais valor ao mérito, menos valor à solidariedade, menos valor a direitos. Os direitos constitucionais estão sendo corroídos, solapados… A gente vê um retrocesso nisso.

 

A democracia está sendo solapada. Então, todos esses valores são as bases das organizações da sociedade civil. É sobre esses valores que se assenta a razão das ONGs. Todos esses valores estão em retrocesso, estão sendo fragilizados no Brasil. A consequência é que isso também fragiliza as chances de sobrevivência e fortalecimento de todo o campo das organizações da sociedade civil. Por isso é tão importante a gente fortalecer as iniciativas de apoio e doação para esse campo de organizações: o período é muito difícil e a gente não melhora a qualidade de vida no país — a nossa, inclusive e a dos mais vulneráveis, mais pobres, especialmente — sem a presença, força e compromisso das organizações não governamentais. 

 

Artur: Perfeito. Bom, terminamos o nosso papo, a aula. Mas agora temos uma parte fundamental do programa que é a Rodada Relâmpago! Vou fazer algumas perguntas para o Domingos, e você responde com a primeira coisa que vier à sua cabeça bem curtinho!

 

Domingos: Maravilha! Pinga fogo!

 

Artur: Pinga fogo! Exatamente! Qual foi a sua doação mais recente?

 

Domingos: Faço 4 doações regulares. A mais recente, foi para o Instituto do Câncer Infantil, aqui de Porto Alegre que eu apoio há varios anos. 

 

Artur: Qual é a sua causa do coração?

 

Domingos: A causa do coração é difícil, me comprometo com muita coisa! Vou escolher uma: combate às discriminações, à todas as formas de discriminação.

 

Artur: O que você doa, além de dinheiro?

 

Domingos: Uau! Doou comida, aqui na porta de casa. Faço doações de comida, às vezes na porta de casa, às vezes vou. Hoje mesmo, veio uma senhora com uma criança aqui na porta e doei alimento. Mas doou trabalho gratuito, também. Sou consultor e às vezes faço alguns trabalhos gratuitos, outros faço quase gratuitamente, semi gratuito. Tenho um grau de dedicação e entrega nos meus trabalhos para além do que é contratado, que reputo como dimensão da minha postura de doação.

 

Artur: Cite uma organização ou um projeto que você admira muito e não é todo mundo que conhece, deveríamos conhecer melhor.

 

Domingos: Uau! Deixa eu pensar… 

 

Artur: Talvez entre esses que você apoia, até!

 

Domingos: Posso citar dois? Um que eu apoio e outro que não apoio?

 

Artur: Pode, claro!

 

Domingos: Pronto! Vou citar um que eu apoio que é o Fundo Brasil de Direitos Humanos, esse é um pouco mais conhecido, é de São Paulo e apoia pessoas e organizações, ambas as coisas, e que são vistos como defensores de direitos e tem um papel fundamental na sociedade brasileira. Fundo Brasil de Direitos Humanos, sou apoiador.

 

Outro que não sou apoiador, mas admiro muito, é o Fundo Elas +. Também é um fundo de pequenos projetos que apoiam mulheres e organizações de mulheres na perspectiva de defesa de direitos em todo o Brasil. É uma organização fantástica!

 

Artur: Fantástico! Imagino que você já tenha convencido muita gente a doar no seu meio de relações pessoais: qual é o argumento vencedor? O primeiro argumento que você usa para convencê-las?

 

Domingos: Sim, convenço! Faço esforços no âmbito familiar, em aniversários, coisas assim, vinculando com doações. O argumento depende do interlocutor, mas algo que gosto de usar é dizer: sai do sofá. Se tu não quer te engajar em nada, apoia quem está engajado fazendo alguma coisa! Confie em quem está engajado!

 

Artur: Perfeito! Eu uso esse também, é o que eu ia falar: ao invés de ajudar uma ONG, ela que está te ajudando, meu amigo!

 

Domingos: Exatamente! Ela está ajudando a melhorar o país, confia, apoia, toma uma iniciativa e apoia. 

 

Artur: Perfeito! Agora, enfim, muito obrigado Domingos! Foi excelente, muito obrigado!

 

Domingos: Foi um prazer enorme, Artur! Bom trabalho e boa sorte para você! Fico à disposição! Um grande abraço!

 

Artur: E por falar em futuro e novas possibilidades de engajamento civil, porque não pelo consumo, vamos ouvir a Duda Schneider com sua dica do Merchan do Bem dessa semana? Chega mais, Duda!

 

Duda Schneider: Oi, gente! Eu sou a Duda Schneider e esse é o nosso quadro Merchan do Bem! A dica de hoje é de uma marca chamada Oriba. A Oriba é uma marca de moda masculina fundada por três amigos que tinham um grande objetivo: apoiar a educação das crianças do nosso país. A marca já nasceu com um propósito muito claro: o projeto começou chamado 1 por 1 — a cada produto vendido pela marca, um kit escolar era doado para uma criança em parceria com a ONG Obra do Berço.

 

Durante a pandemia, o projeto foi paralizado para apoiar a emergência que o país estava e a cada peça comprada da Oriba, a marca estava doando cinco máscaras. Então, foram mais de 10 mil máscaras doadas através desse projeto. Atualmente, a marca já está com um novo projeto chamado !% para educação em parceria com a UNICEF, no qual 1% de todo o faturamento da empresa é destinado para projetos de educação infantil. Incrível, né gente? Quando a marca nasce com um propósito tão forte, a gente vê realmente que leva para sempre.

 

Além de tudo isso, os produtos são lindos: tem bermuda, camiseta, camisa,calça… Tudo de moda masculina e de muita qualidade! E você pode comprar direto no site deles (oriba.com.br) ou nas lojas físicas em São Paulo. Por hoje é isso, pessoal! Espero que tenham gostado e até a próxima!

 

Roberta: Poxa! Eu não participei diretamente dessa conversa com o Domingos, Artur, mas ouvi ela agora e gostei demais! A gente discute muito aspectos mais específicos da cultura de doação, mas é muito importante fazer esse “sobrevoo” do que tá acontecendo no setor como um todo. E quando a gente fala de disseminar a cultura de doação, é muito importante que a gente tenha nomes para chamar esse terceiro setor: OSCs, instituições que trabalham por causas e recebem doações. Como a gente sabe que uma das barreiras para doar é a desconfiança de instituições no geral, a gente precisa ter um discurso muito claro de para quem pedimos doações, o que são essas organizações, qual o seu papel no mundo. Isso faz parte dessa estratégia para que a gente consiga ter, de fato um país mais doador. Entender de onde elas vêm, como elas são, por que são assim e para onde vão é fundamental para ter esse pensamento.

 

Artur: Uma coisa que achei bem interessante, conversando com o Domingos, é perceber o quanto em qualquer época da história ou em qualquer lugar, o Estado não dá conta. Essa percepção é muito importante para acabar com essa falácia de grande parte da população de “eu não tenho que dar nada, o Estado que cuide”, porque sempre vai haver necessidade. Seja porque a gente tem sistemas que geram desigualdade socio-economica, então sempre vai ter uns ganhando muito e outros ganhando pouco, faltando de um lado e sobrando do outro. Ou mesmo porque as necessidades vão mudando, se sofisticando, mas sempre vão ser necessidades, sempre vão ter alguns mais oprimidos ou com menos do que outros. Aí cabe às organizações formadas por cidadãos e suas empresas ajudar a compor esse cenário.

 

Nesse sentido, agora não lembro se falei no on ou no off com o Domingos sobre isso, tem uma questão que me pega muito que é o discurso de dizer: ajude uma ONG, dê uma doação. Na verdade, quem está ajudando a sociedade é a ONG! Você como doador, como uma figura da elite que tem dinheiro acumulado, tem que agradecer um empreendedor social por estar fazendo o que você deveria estar fazendo, você deveria dar de bom grado e agradecer por ele estar te ajudando a fazer esse papel. Tem que inverter esse lugar das coisas.

 

Roberta: É isso, Artur! A gente tem que lembrar que as demandas surgem da sociedade: é a gente que pauta o Estado. Então, a gente precisa se organizar para ter nossas vozes ouvidas, demandas discutidas e encontrar soluções coletivas e propor à toda a sociedade: empresas, Estado, outros cidadãos. Enfim, ONGs, OSCs, sempre serão necessárias. Uma coisa que, no fim, ele não falou, mas acho que já vou deixar para discutir em um próximo episódio, é uma questão do futuro das ONGs que é o financiamento: a dificuldade de conseguir financiamento por meio dos recursos tradicionais, leis de incentivo, subsídios do Estado, apoios e patrocínios de empresa e ainda temos tão pouca doação individual, tem feito com que muitos empreendedores sociais, ao pensar como darão conta de suas pautas, têm escolhido o caminho dos negócios de impacto ao invés do caminho do terceiro setor tradicional.

 

E isso tem mudado mesmo a cara do meio. A gente vê prêmios importantes que sempre reconheceram ONGs como o Prêmio Empreendedor Social, da Folha de São Paulo, sempre distribuído no final do ano, já há mais de 10 anos e, ao longo de sua história, reconheceu empreendedores sociais incríveis de norte a sul do Brasil. Quando a gente olha o histórico dele, nos primeiros anos, você vê empreendedores sociais ongueiros: são líderes de ONGs. Nos últimos anos, a maior parte dos concorrentes são empreendedores sociais que estão a frente de negócios de impacto que é uma mentalidade completamente diferente de operar as coisas: ela prevê receber lucro, esse lucro não vem sozinho, ele vem com impacto para a sociedade, mas é uma nova maneira de atuar e isso muda a filantropia. Fica aqui a minha questão e tema para conversar em um próximo episódio. Até lá, vamos pensando sobre o assunto.

 

Artur: E se você quer seguir o papo nas redes sociais, já que o nosso programa está acabando, vai lá no Instagram, no LinkedIn e no Youtube, procura o Instituto MOL E se quiser falar conosco por email, escreve pro contato@institutomol.org.br

 

Roberta: E por hoje é isso pessoal, semana que vem estamos de volta! Esse podcast é uma produção do Instituto MOL, com apoio do Movimento Bem Maior, da Morro do Conselho Participações e da Ambev. Este episódio teve produção da Graziela Lavezo, e o roteiro final e direção é de Vanessa Henriques e Ana Azevedo, do Instituto MOL. As colunas são de Rafaela Carvalho e Duda Schneider, da Editora MOL. A edição de som é do Bicho de Goiaba Podcasts. Segue a gente no @institutomol por aí! E nos vemos na próxima semana! Até mais!

 

Artur: Até!

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21/07/2022
Transcrição #EP72 – Produtos compre&doe valem a pena?
Roberta: Não é segredo para quem nos ouve o quanto nós acreditamos nos produtos sociais — essas iniciativas que unem o consumo e uma boa ação, como produtos compre&doe ou a destinação de uma porcentagem de lucro para doação, para ficar em alguns exemplos. Além do nosso quadro semanal, Merchan do Bem, com a Duda Schneider sobre o assunto, esse é o modelo que a…
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23/07/2022
Transcrição EP#71 – A política merece a sua doação?
Roberta: Desde o último dia 15 de maio, pré-candidatos às eleições deste ano podem angariar recursos de pessoas físicas para ajudar a financiar suas campanhas por meio de plataformas de crowdfunding. Essa modalidade foi regulamentada pela reforma eleitoral de 2017 e deve atender a requisitos estabelecidos pelo Tribunal Superior Eleitoral. De acordo com dados do próprio TSE, em 2018 e 2020 foram arrecadados mais de…
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21/07/2022
Transcrição EP#70 – Mala direta ainda funciona para captar doações?
Artur: A gente já falou por aqui algumas vezes das milhares de oportunidades que as novas tecnologias trazem pro terceiro setor e pro universo das doações como um todo. Mas isso não quer dizer que os métodos mais tradicionais de atrair e conquistar doadores ficaram muito pra trás, né, Roberta?   Roberta: Muito pelo contrário, Artur. O que várias pesquisas mostram é que esses métodos…
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