Artigo 
08/11/2021
A filantropia se questiona para continuar relevante

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Por Daniel Ferrell-Schweppenstedde, gerente de Política e Relações Públicas da CAF*

 

A filantropia como setor é imensamente variada. O escopo de formas organizacionais e abordagens à mostra é tão vasto quanto o escopo de motivações que levam as pessoas a doar ou se voluntariar – sejam essas motivações emocionais, políticas, religiosas ou algo completamente diferente. Como resultado, precisamos ser muito cuidadosos ao falar sobre filantropia como se fosse um campo homogêneo (como discute Beth Breeze em um artigo recente revidando críticas generalistas da filantropia).

 

Porém, em uma época na qual o setor da filantropia global está passando por um período importante de autorreflexão à luz de rápidas mudanças sociais e econômicas, ainda há um eixo comum para identificar um conjunto de tópicos que deveria ser de interesse para qualquer pessoa envolvida com financiamento para o bem social.

 

Nossa posição incomum (se não, única) aqui na CAF — no nexo entre organizações da sociedade civil e doadores de muitos tipos diferentes — permite o envolvimento com um escopo amplo de atores no campo da filantropia; então aqui está uma breve representação de alguns dos temas-chave que descobrimos estarem em primeiro plano na mente das pessoas ao longo dos últimos meses.

 

A natureza mutante de como a filantropia é definida e organizada

 

Quem é um filantropo

 

Há uma consciência cada vez maior por parte da filantropia institucionalizada de que a definição de quem pode ser um filantropo está mudando. Amarrar a definição em medidas de patrimônio ou quantias financeiras parece cada vez mais ultrapassado e corre o risco de excluir um número crescente de pessoas em níveis mais modestos de riqueza que querem doar de maneira bem pensada para alcançar a mudança social (em particular no contexto global).

 

Mas isso não é apenas sobre pessoas diferentes se envolvendo com modelos existentes de filantropia devido a mudanças demográficas e sociais; também é sobre os modos diferentes pelos quais indivíduos podem se organizar e mobilizar recursos em direção às causas que lhe são importantes. Abordagens de plataforma exercem um papel cada vez maior na mobilização de recursos, guiando a mudança e moldando discursos e narrativas dominantes na sociedade — e elas também vêm com seu próprio conjunto de desafios éticos. Muitos dos que estão doando dessa maneira podem nem mesmo se definirem como filantropos, mas para entender como a filantropia está mudando e como ela poderá se apresentar no futuro, precisamos levá-los em consideração.

 

De um ponto de vista organizacional, os modelos antigos de uma instituição de caridade estruturada de modo hierárquico ou um fundo de doação ou fundação ainda não se tornaram obsoletos; porém, eles certamente não são mais a única opção. Enquanto grandes doadores nos EUA olham para novas estruturas como Limited Liability Corporations (LLCs) e, na outra ponta do espectro, as oportunidades para doação em massa se expandem, a questão será se os modelos mais tradicionais ainda terão um valor único; e se sim, qual é esse valor.

 

Uma visão em transformação de donatários

 

Financiadores estão questionando como eles enxergam as organizações e indivíduos que apoiam e financiam. Algumas fundações de pensamento vanguardista estão se afastando de uma narrativa que enxerga seus donatários como “dependentes” e, ao invés disso, reposiciona-os como parceiros-chave (ou até mesmo atores centrais) e como financiadores conseguem de fato causar impacto e mudança. Enquanto isso, organizações da sociedade civil (OSCs) estão avaliando como a linguagem introduz dinâmicas de poder que podem ser prejudiciais para atingir seus objetivos (por exemplo, questionar o uso do termo “beneficiário”).

 

Isso vai influenciar como a filantropia é organizada. Por exemplo, financiadores podem assumir menos papeis centrais e se enxergar na periferia de um processo. Ou eles podem se tornar mais sintonizados às necessidades dos donatários, focar em construir parcerias ou mudar suas abordagens de financiamento em resposta a tendências diferentes de modo que isso providencie um esquema de trabalho para as práticas que eles continuam a abraçar. Nesse sentido, uma mudança na linguagem que reflete uma mudança de pensamento pode afetar práticas operacionais também.

 

Demandas crescentes em torno de transparência e prestação de contas

 

Indivíduos estão exigindo mais informação sobre como diferentes instituições e organizações agem, e a filantropia não é imune a essas demandas. Haverá níveis maiores de escrutínio conforme as pessoas, cada vez mais, querem saber de onde o dinheiro está vindo e para onde está indo; particularmente à luz do fato de que muitos recebem subsídios generosos na forma de isenção fiscal. Cada vez mais a opacidade e a retenção de informação não serão uma opção conforme a tecnologia digital e a internet dão às pessoas o poder para encontrar a informação por contra própria — ou para identificar onde há lacunas e chamar atenção para elas. Isso pode ser muito empoderador para cidadãos, mas traz aos financiadores filantropos novos riscos de interpretação errada ou especulação maldosa que podem afetar suas reputações. A comunidade de financiadores já está lidando com esse tópico, com a transparência sendo um elemento chave na discussão de prestação de contas para todos os tipos de organizações não-lucrativas.

 

Uma das vantagens que costuma ser mencionada na filantropia é sua independência; o argumento sendo o de que, por não estar em dívida com eleitores ou acionistas, ela pode assumir riscos e experimentar onde outros não podem ousar se envolver por vários motivos. (Apesar de que há questões válidas sobre o quanto a filantropia se encaixa genuinamente nessa descrição). Um resultado paradoxal da transparência maior — se feito do jeito errado — é que ela poderia diminuir a liberdade e a independência dos financiadores filantropos e, portanto, restringir sua habilidade de assumir riscos. O que não é dizer que uma abertura e transparência maiores não são a ambição correta de se ter para a filantropia, mas que devemos reconhecer que podem existir pesos diferentes para se levar em consideração. Exploramos essa questão em maiores detalhes na entrevista com o filantropo Fran Perrin no podcast Giving Thought.

 

Confiança e legitimidade sendo contestadas

 

Essa é uma discussão intimamente conectada à questão da transparência. Um financiador pode ser completamente transparente sobre suas atividades e, ainda assim, não ser confiado pela população maior por uma variedade de motivos, ou passar por uma erosão de confiança em sua organização. Não há mais espaço para complacência, e muitos financiadores podem descobrir que eles precisam renovar constantemente o caso pela sua legitimidade e “licença para operar”. Já estamos vendo isso se desenrolar no nível político, com estados tentando cercear as atividades de financiadores particularmente grandes, não predominantemente na base da falta de transparência, mas pela própria natureza de suas atividades e objetivos (por exemplo, a Open Society Foundation declarou que mudou os escritórios de Budapeste para Berlim devido a um “ambiente político e legal cada vez mais repressor” na Hungria). E financiadores também não existem em isolamento, e muitos estão considerando como suas ações não afetam apenas a confiança em si, mas na filantropia como um todo.

 

De onde vem o dinheiro (e como ele é investido)

 

Escândalos recentes em torno de doações filantrópicas da família Sackler e do financiador que caiu em desgraça Jeffrey Epstein trouxeram à luz questões éticas sobre se determinado dinheiro deveria ser visto como “manchado”. Isso está longe de ser uma questão nova, como exploramos em um episódio do podcast Giving Thought da CAF no ano passado e também em um blog, observando as lições para a filantropia a partir do tombamento da estátua há muito controversa de Edward Colston no porto de Bristol por manifestantes do Black Lives Matter esse ano. Como resultado, um debate mais amplo emergiu em torno da proveniência de fundos filantrópicos e como isso se conecta à legitimidade de atores filantrópicos. E não é apenas de onde vem o dinheiro que importa hoje em dia — também precisamos olhar para como ele é gasto e investido, porque em nosso mundo financeiro altamente interconectado as mesmas questões se aplicam em todos esses contextos.

 

A questão sobre o que é aceitável também não é simples, já que múltiplas tensões entre fatores diferentes entram na equação: não é apenas o que é legalmente permitido, mas o que se alinha aos valores éticos e à missão beneficente de uma organização (e, cada vez mais, aos seus apoiadores). Essas questões têm sido levadas em consideração em uma variedade ampla de relatórios (por exemplo, o Intentional Investing da ACF e o último relatório sobre investimento de emergentes da Stronger Foundations Initiative da ACF). Ainda há uma decisão pendente da Suprema Corte sobre se as instituições beneficentes devem alinhar seus investimentos com seus objetos de caridade. Grandes bancos estão aplicando cada vez mais os critérios ESG – UBS recentemente tornou os investimentos sustentáveis sua solução de preferência para clientes de seu negócio global de gerenciamento de riquezas (estimado em US$ 2,6 trilhões). A filantropia (em particular da perspectiva de ser um cliente de serviços financeiros) está prestando atenção a esses desenvolvimentos.

 

A transformação da liderança

 

Até mesmo antes da pandemia, a questão sobre se os líderes de instituições filantrópicas estavam assumindo riscos suficientes ou se envolvendo com práticas de liderança adaptativas era amplamente discutida. Atingir objetivos (não importa como são definidos) é visto cada vez mais como dependente de um conjunto de fatores como a habilidade de colaborar entre setores, a flexibilidade de se adaptar às mudanças no ambiente externo e a disposição para assumir riscos.

 

Então há as questões do estilo de liderança, estruturas internas e a habilidade de planejar ambientes inclusivos, também amarrando as estratégias de recrutamento e questões de participação e poder em conceder bolsas. Decisões para o desenvolvimento organizacional mais amplo são estabelecidas predominantemente no nível de liderança — e essas decisões estão sendo cada vez mais refletidas à luz dos desenvolvimentos e discussões sociais mais amplos no setor filantrópico.

 

Conectando-se ao ambiente mais amplo

 

A filantropia sendo definida menos como “uma via de mão única”

 

A filantropia aspira ser mais conectada ao seu ambiente externo mais amplo. A independência de financiadores filantrópicos pode ser uma vantagem, permitindo que organizações assumam riscos e experimentem. Porém, também pode se tornar um problema se a mudança que está sendo buscada externamente não necessariamente filtrar de volta para as operações do próprio financiador. Mudanças na sociedade precisam informar como a filantropia é organizada. Líderes no campo da filantropia estão desafiando cada vez mais o status quo e pensando em como se afastar de “apenas dar dinheiro” para guiar a mudança social e liderar por meio do exemplo.

 

Lidando com questões urgentes e indo além do estabelecido

 

A filantropia, no seu melhor, é vista por muitos como um setor orientado para soluções que pode oferecer respostas às questões mais urgentes de nossos tempos. Mas isso exige imaginação e uma disposição de se envolver com as mudanças rápidas que estamos vendo na sociedade. Isso inevitavelmente levanta questões sobre escopo, apetite de riscos e cumprimento de missão.

 

Mudanças sociais e de política na sociedade costumam vir de pessoas desafiando o status quo e isso pode envolver adotar uma série de táticas — incluindo aquelas, como campanha política e desobediência civil, que podem testar o apetite dos financiadores para a controvérsia e as restrições legais sob as quais eles operam. É claro, financiadores podem escolher apoiar organizações usando meios menos radicais e diferentes para atingir um objetivo similar. Mas isso pode vir com compensações em termos de efetividade ou oportunidade, dependendo do problema em questão. Também levanta questões sobre os riscos de financiadores distorcerem o foco de um dado movimento social, ou suavizar suas arestas por meio de escolhas que são feitas sobre o que financiar ou os critérios que financiadores estabelecem quanto a quais atividades são “legítimas”.

 

Um número crescente de pessoas no mundo da filantropia está pedindo que financiadores adotem uma abordagem mais baseada em direitos, e mudem de enxergar seu papel como o de distribuir caridade para o de apoiar chamados por justiça.

 

Alguns argumentam que há uma necessidade para se posicionar em relação a determinadas questões porque elas dizem respeito à proteção da própria democracia, que é vista como um pré-requisito para a filantropia ser inteiramente eficaz e capaz de se engajar com as causas. Ou que ao tentar ser neutra, a filantropia está atingindo o oposto e, na verdade, por padrão, já está escolhendo um lado — como a ideia de que a não-comunicação é uma forma de comunicação.

 

Expandir para o apoio a movimentos sociais e abordagens baseadas em direitos pode abrir possibilidades para lidar com uma vasta gama de problemas que requerem ação urgente por meio de mudanças legislativas (como a crise do clima e a injustiça racial). Mas, por outro lado, isso também pode mover a filantropia mais para perto da política, levando a uma politização de práticas de financiamento ou até mesmo uma polarização do campo inteiro. Então isso poderia dificultar a colaboração em áreas relacionadas a causas tradicionalmente não partidárias.

 

O que vem por aí?

 

Está claro que muitos financiadores filantrópicos já estão em uma jornada de compreensão e interrogação de suas próprias abordagens, muitas vezes se perguntando se eles prosperam por meio das próprias coisas que desejam mudar e, assim, correm o risco de minar sua própria eficácia. Para todas as organizações existem desafios quando se trata de equilibrar as partes interessadas e a necessidade de viver de acordo com seus próprios valores com um ambiente mais amplo que valoriza a eficiência e a velocidade, mas essas são questões que serão particularmente agudas no setor da sociedade civil.

 

Essas são discussões contínuas e difíceis, e não há respostas fáceis à mão. Mas se quisermos garantir que a filantropia continue a ser uma força poderosa para impulsionar a sociedade no futuro, então é crucial que nos envolvamos com eles. Nós aqui da CAF certamente faremos isso e continuaremos a alimentar essas conversas para que possamos compartilhar nossas próprias percepções e aprender com os outros.

 

*Texto originalmente publicado no blog Giving Thought, da CAF America, em 26 de outubro de 2020. Íntegra (em inglês) aqui

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