07/03/2022
Transcrição EP #53 — O que significa justiça social?

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Artur: Olha, o dia 20 de fevereiro não é feriado, mas guarda uma das datas comemorativas mais relevantes socialmente do ano: é o Dia Mundial da Justiça Social, como foi estabelecido pela Assembléia Geral da ONU. E a cada ano a organização escolhe um tema relevante para chamar a atenção para um ângulo diferente desse assunto. São problemas como a extrema pobreza, o trabalho ilegal e, num contexto de pandemia, as dificuldades apresentadas por um novo modelo de trabalho digital. Mas você sabe o que é justiça social? Muita gente acha que sim, mas, para além do combate à pobreza e desigualdade, o termo fala das ações e estratégias dos governos, instituições de terceiro setor e da sociedade civil pra de fato fazer essa luta acontecer. Inclusive, hoje teremos conosco a Graciela Hopstein, que representa uma dessas instituições relevantes no cenário brasileiro. Ela é coordenadora-executiva da Rede de Filantropia para a Justiça Social, que apoia e promove iniciativas de justiça social, direitos humanos e cidadania.

 

Eu sou Artur Louback

 

Roberta: Eu sou Roberta Faria

 

Roberta: E justiça social é o tema de hoje no… 

 

Artur e Roberta: Aqui se Faz, Aqui se Doa!

 

Artur: Está começando mais um Aqui se Faz, Aqui se Doa, o seu podcast semanal sobre cultura de doação produzido pelo Instituto MOL, com apoio do Movimento Bem Maior, da Morro do Conselho Participações e Ambev, e divulgação do Infomoney. 

 

O tema de hoje é um daqueles centrais para quem trabalha no terceiro setor, para quem doa e para quem se preocupa com o estado das coisas no Brasil e no mundo.

 

Roberta: Com certeza, Artur. Pensar em justiça social é pensar no combate a todo tipo de desigualdade que ainda existe na nossa sociedade e são muitas. E elas são tantas e tão profundas que esse trabalho precisa ser contínuo e cada vez mais engajado.

 

Artur: E o bacana é que dá pra contribuir com isso de diversas formas, não só doando, mas até no seu dia a dia mesmo. Certamente você pode fazer bastante para combater o preconceito, por exemplo, se policiando e alertando as pessoas ao seu redor. Ou então em algum momento vai ter a chance de oferecer uma oportunidade para alguém que está com  dificuldade e, de alguma forma, foi barrado na sua vida, por razões que ela não escolheu.

 

Roberta: É isso mesmo! Mas, pra saber melhor o que justiça social significa, vamos entender quando esse conceito surgiu. Apesar de a ideia existir há muito mais tempo, desde filósofos clássicos como Platão, a expressão justiça social só foi aparecer lá pro final do século 18. Sua origem exata é meio nebulosa. No começo, o termo foi inclusive acusado de uma certa redundância. Afinal, a justiça deveria ser social.

 

Artur: Ao longo do tempo, o tema foi explorado por pensadores católicos como os padres Luigi Taparelli e Antonio Romini, que foi inclusive um dos que ajudaram a popularizar a expressão justiça social. A ideia então tinha muito a ver com o amor fraternal, que é muito forte na religião. Seria uma busca de unidade na nossa sociedade que reflete a ajuda ao próximo. Bem mais tarde, já com a Revolução Industrial em andamento, o uso do termo foi se generalizando, saindo do âmbito religioso e ganhando um contexto maior, passando a integrar instituições e legislações pelo mundo. Em 1971, o filósofo americano John Rawls ajudou a tornar o conceito da justiça social central para filosofia, com o livro “Uma Teoria da Justiça”.

 

Roberta: E a busca por justiça social hoje é mais importante do que nunca. Não é só clichê de falar que o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, o segundo mais desigual. É a realidade. Segundo dados do banco Credit Suisse, os índices por aqui, que já eram altíssimos, cresceram ainda mais em 2020, com a pandemia. Para se ter uma ideia, apenas 1% da população — o que corresponde no brasil a 200 mil pessoas — tem nas mãos 49,6 % da riqueza total do país, ou seja, metade da riqueza nacional na mão de 200 mil pessoas. Um salto de 3% em relação a 2019. Nós vimos em listas de Forbes e afins como aumentou o número de bilionários e milionários em 2020, ao mesmo tempo em que aumentou o número de famintos, é claro.

 

Artur: Terrível e uma vergonha a gente sair do ponto em que está para aumentar a desigualdade — já sair de um cenário terrível para ficar pior ainda. Esse é o pior nível de concentração de renda no Brasil desde 2000. Estamos muito acima, inclusive, de vizinhos latino-americanos. Na verdade, entre as grandes economias do mundo, o Brasil só fica atrás dos russos em concentração de renda. Com os impactos da pandemia e da crise econômica, esses resultados podem se tornar ainda piores nos próximos anos.

 

Roberta: E claro, justiça social não é só sobre renda, mas também sobre oportunidade e igualdade, ou oportunidades equânimes para todo o tipo de minoria política e grupos minorizados, no geral. Agora que a gente sabe um pouco melhor o contexto, vamos descobrir com a gente o significado exato. Para isso, a gente chama a nossa Alexa que, aqui, se chama Rafa.

 

Rafa Carvalho: Bora, para mais um glossário, pessoal? Se for pra resumir em uma frase, dá pra dizer que justiça social representa um conjunto de ações que tentam solucionar o problema da desigualdade na nossa sociedade. Esse compromisso é assumido em geral pelos diversos governos, por organizações não governamentais e até mesmo por algumas instituições privadas.

 

Para falar desse tema, não dá pra fugir do filósofo americano John Rawls. Talvez você nunca tenha ouvido falar dele, mas ele desenvolveu toda uma teoria de que existem três pilares fundamentais para conseguir uma maior igualdade social. Os pilares são: 1) a garantia de liberdade pra todos, 2) a equidade de oportunidades… E 3, o mais importante: só pode existir qualquer tipo de ação desigual se for para auxiliar aqueles que já são desfavorecidos (é aquela ideia de que se todo mundo parte de lugares diferentes, para chegar no mesmo fim, as pessoas precisam de ferramentas diversas que busquem construir um mínimo de base comum).

 

Outra pessoa que pensa bastante sobre justiça social é o vencedor do Prêmio Nobel de Economia, um canadense chamado David Card. As questões sociais são frequentes no seu trabalho e ele até já olhou aqui pro Brasil! Em 2018, ele fez uma pesquisa sobre como a questão racial influencia nos salários das empresas brasileiras – e spoiler: influência, e nosso racismo estrutural faz com que pessoas pretas sigam ganhando menos que pessoas brancas nas mesmas funções. O fato de terem escolhido o David Card para receber esse prêmio Nobel mostra o quanto hoje já se reconhece a importância da preocupação social estar embutida na questão econômica também. Uma das principais buscas do governo pelo mundo, inclusive, tem que ser equilibrar esses pratinhos: de um lado a justiça social e do outro o crescimento econômico. E, nesses tempos difíceis de crise e pandemia, a importância da justiça social fica cada vez mais evidente, né?

 

Bom, eu sou a Rafaela Carvalho e toda semana trago para você um conceito para ajudar a entender melhor a cultura de doação no Brasil e no mundo. Até a próxima!

 

Roberta: Perfeito, Rafa! Valeu mais uma vez por botar um pouco de conhecimento na nossa cabeça, e espero que nos nossos ouvintes também!

 

Artur: Na minha cabeça, com certeza! Sempre bom ter a Rafa nos apoiando como Wikipedia do Bem. E ouvindo agora essas informações que a Rafa trouxe, pensei que a ideia da justiça social já é tão forte na sociedade, até porque ainda existe tanta injustiça e desigualdade, que a gente nem para pra pensar na teoria, né? No que significa de fato a busca dessa justiça.

 

Roberta: Verdade, e agora, para a gente entender melhor, é hora de ouvir um pouco disso aí na prática. Nossa produção conversou com a baiana Maria Antônia Dezidério, uma estudante de direito que participou quando adolescente do projeto Parlamento Jovem Brasileiro. O programa oferece a estudantes do ensino médio de todo o país uma oportunidade de simular o trabalho dos deputados federais. 

 

Artur: A ideia é levar jovens a se engajar desde cedo em questões de política, cidadania e participação popular. A Maria se inspirou a participar do projeto num dos momentos mais difíceis da vida de um estudante: a hora de escolher a faculdade. Vamos ouvir o que ela tem a dizer?

 

Maria Dezidério: Os meus amigos estavam todos surtando com escolha de curso, mas ninguém estava surtando com questão de propósito, ninguém estava surtando com a extrema pobreza, ninguém estava surtando com o machismo que existia todos os dias na sala de aula, com a falta de representatividade de pessoas negras. Essas questões estavam latentes em mim e continuam latentes em mim. Não é um caminho fácil, mas a minha participação no Parlamento Jovem nesse ano específico veio desse meu desejo, que eu já tinha há muito tempo, continuo tendo e acho que não vai cessar nunca, de aprender mais e ver como que eu posso fazer alguma coisa pra mudar todas as questões que me indignam e me deixam triste, mas ao mesmo tempo revoltada e motivada para fazer alguma coisa. Eu não consigo não fazer nada, eu acho que não estou nessa posição, e participar do Parlamento Jovem  foi uma forma de eu desenvolver essa habilidade que eu sabia que no final do meu terceiro ano eu não tinha.

 

Artur: Que história inspiradora! E pra quem não sabe, durante esse período como jovem parlamentar, ela chegou a propor um projeto de lei de um programa chamado Casa Primeiro. O objetivo era garantir moradia e o acesso a serviços essenciais para moradores de rua. E a Maria contou pra gente que o interesse pelo tema veio também na sala de aula. Vamos ouvir?

 

Maria Dezidério: Era um tema da redação sobre sistema de saúde pública. E aí uma pessoa foi lá e perguntou: você sabe o que é preciso para ter acesso a sistema de saúde pública? Aí a pessoa falou: você tem que ter uma carteira de identidade e comprovante de residência. E aí eu levantei a mão e falei: e quem mora na rua, tem acesso a isso? Aí a professora falou: acho que não, deve ter uma forma de eles fazerem acesso, mas eles não têm esses serviços continuados, que são agendamentos, por exemplo, com pessoas que têm diabetes, que têm que ir todo mês, a cada quinzena, receber medicamento. E eu fiquei muito chocada com aquilo, fui pesquisar, e aí eu me adentrei mais sobre a questão das pessoas em situação de rua. E aí eu vi que a cidadania vai até a página dois quando se trata desse tipo de população, de pessoas em situação de vulnerabilidade, e existem muitos problemas. E foi nesse sentido que eu falei: acho que eu quero fazer um projeto de lei sobre isso.

 

Roberta: Muito bem! Nota 10! E o mais legal é que a Maria levou consigo esse interesse pela justiça social, tanto na faculdade de direito quanto no ativismo social, que já faz parte do dia a dia dela. Por isso é tão importante a gente falar desses temas ainda na infância e na adolescência. 

 

Artur: Roberta, eu adorei essa história contada pela Maria! Muito inspirador, me lembrou do meu tempo de escola em que eu também era um contestador, mas lembro que era muito difícil engajar esse pessoal mais jovem, porque a alienação era parte dessa juventude. Acho que hoje isso mudou, acho que com os canais de comunicação existe uma juventude mais engajada, mas é muito legal conseguir fazer isso e ter meios importantes de pensar como gente grande sobre essas questões também. Não só querer ser gente grande para ter carro e fazer bobagens dos adultos. É por isso que iniciativas desde a escola, programas como o Parlamento Jovem e a ação de ONGs são tão importantes. Especialmente nessa fase, porque é uma fase de aprendizado que fica pra vida toda, é ali que se forma o nosso alicerce.

 

Roberta: Falou bem Artur! E inspirar pessoas a seguir pelo caminho da justiça social é uma das especialidades da nossa convidada de hoje. A Graciela Hopstein é mestre em educação e doutora em política social e hoje é coordenadora-executiva da Rede de Filantropia para a Justiça Social. Ela atua também como consultora, professora e pesquisadora na área social e já foi diretora-executiva do Instituto Rio.

 

Artur: Eu bati um papo muito legal com a Graciela, que vocês vão notar, é brasileira naturalizada, mas argentina de nascimento, então ela leva uma malemolência no seu sotaque ainda. Vale dizer que essa conversa foi feita no ano passado, no Dia de Doar! Então, acho que até por isso a gente estava mais animado.

 

Graciela, estamos muito felizes com a sua presença aqui no podcast! Queria agradecer por ter aceitado o nosso convite!

 

Graciela: Muito obrigada Artur! Estou muito feliz e agradecida por estar aqui conversando com vocês sobre um tema tão importante e que forma parte do meu trabalho no dia a dia.

 

Artur: Graciela, queria que começasse falando um pouco do trabalho que vocês desenvolvem na Rede de Filantropia para a Justiça Social. Que iniciativas vocês têm desenvolvido e como tem sido esse período de pandemia para vocês?

 

Graciela: Para quem não sabe, a Rede de Filantropia para a Justiça Social é uma rede que reúne treze organizações membro — agora vamos ter uma décima quarta, que está se incorporando à rede — e são todas organizações grantmakesr, ou seja, que doam para a sociedade civil, mas ao mesmo tempo mobilizam recursos para doar de diversas fontes. Ou seja, diferente de um instituto ou uma fundação empresarial, uma empresa, os fundos mobilizam recursos majoritariamente com organizações filantrópicas, mas também internacionais, mas também com brasileiros, para doar para a sociedade civil.

 

Na verdade, a rede tem uma agenda própria, que é justamente, sendo uma organização do ecossistema filantrópico brasileiro, sua missão é uma missão de incidência: tentar realmente, cada vez mais achar mais recurso para doar para a sociedade civil nas causas vinculadas à justiça social e direitos humanos. Então, a rede hoje tem o que a gente chama de fundos temáticos, fundos vinculados a temas como gênero, direitos humanos, questão racial — sempre em uma perspectiva interseccional, porque os direitos humanos não podem ser colocados em caixinhas: quando se trabalha com mulheres, se trabalha com mulheres negras, com mulheres lésbicas; quando se trabalha com questão racial entram as interseccionalidades. Temos fundos comunitários que são, na verdade, fundos alocados em organizações sociais que são desenvolvedoras de projetos, mas utilizam, de alguma forma, os fundos para alavancar determinadas agendas. E temos fundações comunitárias. Dentro desse leque, a gente atua.

 

Nossa missão é essa: influenciar a sociedade civil para que cada vez haja mais recursos para doar para a sociedade civil nessas causas como direitos humanos e justiça social de forma geral.

 

Artur: Perfeito. Graciela, a gente já falou aqui no começo do episódio, mas conceitualmente, sobre  justiça social, até dando um histórico mais de como se criou isso como tema de estudo, explicamos um pouco o que significa lutar contra a desigualdade. Mas queria que você falasse um pouco, que conhecesse o tema tão a fundo e a tanto tempo trabalha com isso, como o Brasil está em relação ao restante do mundo? Quão desenvolvido a gente é em relação a esse tema, tanto em relação a países que têm índices de desenvolvimento humano mais baixos que o nosso e os mais altos, mais desenvolvidos? 

 

Graciela: Na verdade, para nós, o grande guarda-chuva, eu diria que é a desigualdade. A desigualdade tem um recorde bastante especial dentro da Rede, porque trabalhamos com foco no acesso a direitos. Ou seja, a questão da desigualdade para nós é abordada na questão da desigualdade de acesso a direitos. E quando falamos de direitos, falamos de direito de cidadania, de direitos humanos… Esse é o nosso recorte. Por isso, o trabalho de justiça social e de direitos humanos tem esse recorte.

 

O que eu vejo, dando um panorama geral, é que o Brasil, nos últimos anos, tem avançado bastante em algumas agendas vinculadas a direitos humanos que hoje estão absolutamente instaladas na agenda da política, que inclusive no contexto da eleição não podem ser desconhecidas — como a questão racial, a questão LGBT… Isso estou falando em relação aos direitos dessas populações, inclusive direitos indígenas que têm, inclusive, certos avanços importantes reconhecidos até juridicamente. Porque, hoje, temos a criminalização de, por exemplo, discriminação racial, discriminação de gênero, etc.

 

Entretanto, também estamos vivendo um retrocesso significativo no âmbito das políticas públicas no contexto desse governo. E tudo isso faz com que, na verdade, embora por um lado temos a instalação dessas pautas com muita força e que qualquer candidatura política vai ter que falar dessas agendas, porque de fato são um campo de conflito permanente, inclusive com o governo — todas essas agendas de direitos humanos e justiça social. O que nós temos por outro lado é uma ameaça muito forte a defensores de direitos, a essas agendas, ou seja, temos um duplo movimento: um movimento de instalação forte dessas agendas e temos um movimento de ameaça a essas agendas. Especialmente ameaça concreta às populações envolvidas nessas agendas: populações indígenas, quilombolas, sociedade civil como um todo, ciências vinculadas a mudança climática, etc.

 

Então, nós estamos em um momento de grande conflito. Na verdade, claro que no Brasil se dá de uma forma bastante particular, no contexto do governo atual. Mas eu diria que são agendas que, de alguma forma, estão em conflito no mundo todo. Em conflito quer dizer em uma disputa da agenda. A gente está vendo uma onda muito conservadora vindo que ameaça essas agendas e, ao mesmo tempo, nós temos movimentos que não tem volta atrás. Se a gente analisa, por exemplo, o movimento de Vidas Negras Importam — o Black Lives Matter — na verdade vemos todas as agendas vinculadas à violência… Isso não tem como voltar atrás! E acho que, de alguma forma, a questão conservadora é uma resposta à essas agendas, porque essas agendas estão cada vez avançando mais e, na verdade, essa agenda conservadora é uma resposta para tentar frear essas pautas que vem com muita força não apenas no Brasil, mas no mundo todo.

 

Claro que nós temos nuances, países que estão mais avançados, países que estão menos avançados… Mas inclusive em países que têm agendas interessantes de distribuição de renda e de direitos, também estamos vendo um retrocesso importante. Inclusive se a gente olha países como a França, Inglaterra, o Reino Unido como um todo… Mas acho que isso é uma resposta. A onda conservadora é uma resposta à força que estão ganhando essas agendas.

 

Artur: Perfeito. Um dos assuntos que a gente tocou no início do programa foi o engajamento de jovens nessas questões de justiça social. A gente vê um movimento impactado pela tecnologia da informação e são vias que se cruzam em sentidos opostos: ao mesmo tempo em que a gente vê que a tecnologia, muitas vezes, leva o jovem à alienação, ou dá as ferramentas para se alienar, mas ao mesmo tempo, para o que querem se mobilizar, ajudam a aglutinar movimentos. Como você vê a participação dos jovens, principalmente em um momento de agravamento dessas questões, como agora, e quais os desafios em relação a isso?

 

Graciela: Novamente vejo um duplo movimento. Assim como a gente tem jovens abraçando as agendas mais conservadoras, temos também todos esses movimentos que estão na agenda, estão nos espaços políticos, estão nas ruas e são conduzidos principalmente por jovens. São os que têm, realmente, a força de transformação. Então, vejo que esse engajamento tanto por conquistas de direitos, luta para instalação de pautas, desconstrução do que a gente tem aí, como também temos um movimento mais conservador. Acho que as mídias sociais abriram diversas portas, não acho que é uma polarização: são dinâmicas que coexistem. 

 

É impossível hoje pensar no protagonismo dos movimentos sociais, sem pensar no engajamento de jovens. Porque são os jovens que realmente recriam o tempo inteiro essa agenda, recriam o tempo inteiro a dinâmica dos movimentos. E, obviamente, essa juventude que temos é muito interessante, porque traz elementos novos em que a comunicação é uma estratégia absolutamente relevante e as mídias sociais facilitam isso. Ao mesmo tempo, é uma juventude que reconhece a trajetória dos movimentos anteriores. Isso é interessante porque vai se somando: você tem uma juventude que reconhece, por exemplo, a luta histórica do movimento negro, a luta histórica do movimento feminista e vai recriando essas agendas, porque a gente não pode ficar no passado. 

 

Hoje, são agendas identitárias que vão se cruzando e essa questão interseccional, que eu falei. Hoje, a gente não fala da mulher, a gente fala da mulher negra, da mulher indígena, da mulher lésbica, da mulher trans, da mulher quilombola… Todas essas questões são os movimentos que tem essa capacidade, inclusive de sair das caixinhas. E são essas múltiplas conexões, não apenas no Brasil, mas uma juventude que tem uma conexão com o regional — que é a América Latina — e com o mundo. Hoje, temos esses laboratórios acontecendo, o que é realmente muito interessante do ponto de vista de como se dão as lutas e os movimentos.

 

Artur: Legal. E em relação à filantropia, Graciela? A gente nota, como você falou, que nesse momento de crise terrível, as doações aumentarem, surgirem de lugares inesperados, empresas que nunca tinham se engajado dessa forma… Mas, ao mesmo tempo, nota no segundo ano da pandemia uma queda muito grande no montante de recursos doados, o que mostra que, talvez, não tenha se desenvolvido tanto a cultura de doação nesse período, mas um capital mais emergencial, algo assim… O que a gente pode tentar fazer para ter um impacto mais duradouro e fazer com que as empresas e pessoas sejam mais doadoras permanentemente?

 

Graciela: Esse é um grande desafio, realmente. Porque, na verdade, a sociedade brasileira se mobiliza perante as catástrofes, em geral: catástrofes sanitárias, catástrofes naturais… Essa é uma conduta do perfil de doação da sociedade brasileira. Eu vejo que, na verdade, estamos dando pequenos grandes passos, porque, é verdade que algumas das doações ou muitas das doações feitas no contexto da pandemia tentaram criar, de alguma forma, uma ideia de continuidade, por exemplo, criando fundos patrimoniais. A gente tem a experiência do Itaú UNIBANCO, criando um fundo patrimonial, de 1 bilhão, e a ideia é que esse fundo possa permanecer. 

 

Obviamente, qualquer processo de transformação não se dá de um dia para o outro. São, de repente, décadas até acontecer. Mas tem, na sociedade civil e no campo da filantropia, movimentos cada vez mais trabalhando no sentido de fortalecer a cultura de doação. E olha a felicidade, você está fazendo essa entrevista hoje que é o Dia de Doar. O Giving Tuesday que, no Brasil, é o Dia de Doar e que já vem crescendo de forma bastante expressiva e tem movimentos como o Movimento por uma Cultura de Doação, a própria Rede, o próprio GIFE, que estão abraçando essa causa. E a ideia justamente é doar de forma mais permanente. Mas a gente tem que ir fazendo baby steps, passo a passo. 

 

Vejo que estamos longe do que o Brasil poderia ser, porque existe ainda um gap muito importante entre o potencial que o Brasil tem para ser efetivamente doador. O Brasil é a décima segunda economia do mundo, talvez a décima, não sei como ficou no ranking. Tem pessoas muito ricas, tem empresas muito poderosas, mas ainda tem uma cultura de doação muito aquém. Quando, na verdade, se doa muito pouco para a sociedade civil e se doa muito menos ainda para causas de direitos humanos e justiça social. Mas todo esse movimento de doação, de alguma forma vai criando massas críticas e camadas para envolver cada vez mais doadores. Acho que sim, existe hoje, pelo menos na agenda pública, a ideia da doação como estratégia que não vai apenas no caminho do assistencialismo, que vai também no sentido de criar dinâmicas mais permanentes. Existem muitas pessoas trabalhando nisso e existe uma força tarefa para isso.

 

Ainda estamos engatinhando, considerando o potencial que o Brasil tem, considerando outros países, especialmente do hemisfério norte, que tem formas de doação que são expressivas. Mas também queria aproveitar para dizer que, na verdade, existem formas de doação que a gente às vezes não percebe, que a gente precisa, de alguma forma, começar a dar visibilidade. São as doações que acontecem no nível da comunidade. Existe, inclusive, uma ancestralidade no Brasil. Ou seja, o movimento negro, o movimento indígena, consegue, a muitos anos, criar dinâmicas de doação para alavancar suas próprias atividades. A gente tem que olhar para ela! Não é que as grandes empresas e a grande filantropia são os únicos atores da doação. 

 

Existem muitas iniciativas no Brasil que são de pequenas comunidades, inclusive comunidades quilombolas e indígenas, comunidades de agricultura familiar, que tem toda uma cultura de doação, trabalho colaborativo e cooperativo de doação de tempo, de bens, colocar dinheiro do seu próprio bolso para comprar um biodigestor. Inclusive, sabemos que as comunidades, as irmandades negras já vinham se organizando a muito tempo para comprar alforria para os escravos. Temos que olhar para isso também, porque quando a gente vê a grande filantropia, falamos em 6 ou 7 bilhões. Mas não olhamos para essas experiências que foram muito alavancadas e potencializadas pela economia solidária, que foi uma política pública brasileira muito importante durante os governos Lula e Dilma, que foram realmente muito importantes para criar fundos rotativos, bancos comunitários… 

 

Em termos de volume de recurso, não se compara com a grande filantropia. Mas tem tecnologias, tem conhecimentos, tem atores muito relevantes articulando territórios, e fazendo coisas onde a grande filantropia não chega. O que a gente chama de filantropia comunitária. Temos que pensar também nisso. Isso existe. E que a grande filantropia olhe para essas experiências para poder apoiá-las e que elas possam se desenvolver cada vez mais.

 

Artur: Muito bem lembrado. Bom, Graciela, o papo está maravilhoso, mas o nosso tempo é curto, então agradeço pela entrevista. Agora, vou te convidar para tirar o papel de gestora da Rede e se colocar pessoalmente para participar da nossa rodada relâmpago! 

 

Graciela: Ótimo!

 

Artur: Explicando: vou te fazer algumas perguntas e você responde com a primeira coisa que vier à sua cabeça, curtinha!

 

Graciela: Tá bom!

 

Artur: Qual foi a sua doação mais recente?

 

Graciela: A minha doação mais recente foi para uma grande campanha pública: Se tem gente com fome, dá de comer.

 

Artur: Qual é a sua causa do coração?

 

Graciela: Minha causa de coração tem a ver com a justiça social e direitos humanos.

 

Artur: Claro… O que você doa e que não é dinheiro?

 

Graciela: Eu doou dinheiro, porque acho importante. Mas também doou tempo e conhecimento. Acho que doar conhecimento também é uma coisa importante. Pensar o campo e isso também é uma forma de doação importante.

 

Artur: Graciela, você já convenceu alguém a doar? Se sim, qual é o argumento decisivo que você usa para isso?

 

Graciela: Não acho que sou uma promoter da doação de forma geral, mas acho que na minha família temos falado muito na importância da doação, especialmente na pandemia e acho que isso é  importante, pelo menos a gente decide de forma familiar que doações fazer e quando alguém quer doar para alguma causa doamos. Inclusive para pessoas físicas que passam necessidade e que a gente, de alguma forma, quer apoiar. Pessoas que representam minorias políticas, etc.

 

Artur: Ótimo, muito bem lembrado! Ótimo, Graciela, muito obrigado! Agradeço muito a sua participação e volte sempre por aqui!

 

Graciela: Muito obrigada pela oportunidade! Agradeço muitíssimo poder falar sobre todas essas questões e que vocês tenham me convidado para falar sobre filantropia, justiça social e direitos humanos. Muito obrigada mesmo pelo convite, mais uma vez.

 

Roberta: E para quem se sentiu inspirado e quer pensar em colocar mais justiça social, mais luta no seu dia a dia, dá para fazer isso mesmo indo ao supermercado, à farmácia e consumindo, em geral. Vamos ouvir o Merchan do Bem da semana?

 

Duda: Olá, querido ouvinte! Você já deve ter ouvido falar sobre shampoo em barra, não é mesmo? Esse produto nasceu como uma opção muito mais sustentável para o nosso dia a dia. Mas o que talvez você não saiba ainda é que podemos multiplicar esse bem! Além de sustentável, ele ainda reverte parte de sua renda para projetos sociais. Bom, essa é a dica do nosso quadro Merchan do Bem! Eu sou a Duda Schneider e vou contar para vocês sobre os produtos da marca B.O.B!

 

A B.O.B é uma marca que nasceu com o objetivo de desconstruir paradigmas, inovar a indústria e mostrar que podemos ser sustentáveis com práticas acessíveis. Eles possuem produtos de autocuidado em barras que não precisam de plástico para existir e não desperdiçam água para produzir. E, ainda por cima, até o dia 26 de novembro de 2022, a marca vai reverter 0,5% do faturamento de todas as barras para a WWF Brasil para apoio a projetos de regeneração e preservação à natureza. Demais, né? Para garantir o seu e começar a mudar seus hábitos, é só entrar no site da loja: www.usebob.com.br

 

E olha só! A nossa produtora do podcast, a Ana Azevedo usa os produtos e recomenda muito! Espero que tenham gostado do quadro de hoje e até a próxima!

 

Roberta: Artur, vou levar pro coração essas conversas que a gente teve hoje sobre justiça social. É engraçado como muitos de nós que trabalham no terceiro setor, são ativistas, de alguma maneira, carrega esses valores e essa luta desde cedo, como acontece com a Maria Antônia, mas sem saber o nome das coisas ou saber os conceitos por trás ou o tamanho que essa luta tem. Então, ouvir as lutas da Graciela, da Maria Antonia me deixou muito inspirada e me fez pensar também que a gente precisa estudar mais para tentar ser mais justo ainda com tudo o que a gente faz.

 

Artur: É um assunto difícil, ainda mais no contexto em que a gente vive. O Brasil vive muitos extremos e a gente tem uma parte da sociedade que toma conta da maior parte das decisões e domina a maior parte do capital que, na verdade, não gosta e não conhece o Brasil real. Tem uma coisa que vi com a Graciela, a gente até conversou um pouco depois da entrevista, que tem uma dificuldade de acessar alguns extratos da população simplesmente com um discurso que deveria ser óbvio. Mas, como ele não faz parte da vida das pessoas, você tem que esperar momentos como a pandemia, que fica muito latente e as pessoas se engajam. Parece que a justiça social surgiu ali e você vai resolver ali. Acabou, passou e a gente está em um cenário… Esse ano foi pior a situação, obviamente, porque se acumulou todos os danos da pandemia e de uma política econômica desastrada e não voltada para o social, que foi se acumulando ao longo dos anos e foi pior, a gente tem uma participação menor dos grandes doadores para trabalhar essas questões. É estranho, mas enfim…

 

Me senti muito inspirado pela Graciela, porque é uma lutadora. Até conversei um pouco com ela depois sobre ser uma argentina militando no Brasil e tudo… É uma figura e um movimento que acho muito legal. Uma coragem tipo Garibaldi, que você vai atrás da justiça social onde é demandada a luta. E ela é uma dessas lutadoras, admiro muito essa coragem.

 

Roberta: Acho que o principal dessa reflexão é entender a diferença… Quando a gente pensa em justiça social, a gente está falando de igualdade, mas a gente não conquista igualdade dando apenas oportunidades iguais para todos, porque as pessoas partem de lugares diferentes. Reconhecer isso é reconhecer o valor de ações concretas de organizações do terceiro setor, da sociedade civil e muitas do Estado que dão, não só oportunidades, mas também ferramentas para que as pessoas possam ter oportunidades semelhantes de acordo com o lugar em que elas estão, com seu gênero, sua raça, sua classe social, seu grupo étnico… A gente só vai ter igualdade, dando oportunidades desiguais na forma de cotas, bolsas, auxílios e outras maneiras de trazer todo mundo para um ponto de partida semelhante.A gente ouve muito isso no terceiro setor, das empresas e grandes doadores falando que não quer dar o peixe, quer ensinar a pescar. Você não ensina alguém com fome a pescar: você precisa dar o peixe e ensinar a pescar. E você também precisa dar ferramentas: caniço, isca e garantir que o rio esteja livre e acessível para todos. Então, essa falácia que você tem que escolher a maneira com que você doa privilegiando as ferramentas ou oportunidades e não dar o caminho, não funciona. A gente só vai ter justiça social com as duas coisas andando juntas.

 

Artur: E se você quiser participar dessa discussão sempre oportuna, entra em contato com a gente nas redes sociais! Quem sabe a gente não consegue até debater pelos comentários! É um sonho nosso que a gente vire tema e tenha papos construtivos ali. Você pode ir no Instagram o @institutomol e busca o nosso perfil do LinkedIn! E para quem quiser mandar um alô por email contato@institutomol.org.br.

 

Roberta: E por hoje é isso pessoal, semana que vem estamos de volta! Esse podcast é uma produção do Instituto MOL, com apoio do Movimento Bem Maior, da Morro do Conselho Participações e Ambev, e divulgação do Infomoney. Esse episódio teve a produção de Leonardo Neiva, e o roteiro final e direção é de Vanessa Henriques e Ana Azevedo, do Instituto MOL. As colunas são de Rafaela Carvalho e Duda Schneider, da Editora MOL. A edição de som é do Bicho de Goiaba Podcasts. Até mais!

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