Transcrição EP #82 – Arte que mobiliza doações

ROBERTA: Salve salve, nação doadora. Tá no ar o seu podcast favorito sobre cultura de doação, produzido pelo Instituto MOL com apoio do Movimento Bem Maior.

 

Aqui, você fica por dentro sobre as conversas do momento na filantropia com informações, pesquisas e entrevistas com importantes personagens do setor no Brasil.

Tudo de forma clara e objetiva, sem lero lero. 

 

Eu sou a Roberta Faria, 

 

ARTUR: E eu sou Artur Louback, e, semana sim, semana não a gente te convoca a vir com a gente aqui para receber uma dose de inspiração, para você que tá interessada, interessado ou interessade em filantropia e gostaria de saber mais e ter dados para inspirar pessoas empresas a doar com propósito, com consciência e com o coração… Afinal,

ROBERTA E ARTUR: Aqui se Faz, Aqui se Doa

 

ROBERTA: Olá! Estamos de volta e, no programa de hoje, nós vamos percorrer os caminhos que a arte encontra para movimentar doações, engajar pessoas em causas sociais e também vamos conhecer o trabalho do cineasta Leonardo Brant da Deusdará Filmes e os seus documentários ligados a causas sociais. 

 

ARTUR: No Pra Saber Mais, a gente traz dicas de produções audiovisuais, dentro do tema desse episódio, para você se inspirar e indicar aí para comunidade, colegas de trabalho ou pessoas que você acha que vão se interessar pela conversa também. Mas antes vem com a gente para relembrar um episódio aqui da temporada passada…

 

SONORA RAFAEL MARQUES: Em 2014, a gente teve uma novela das nove, Em Família, do Manuel Carlos, que o personagem do Gianecchini era um paciente cardiopata, e, no final, da novela ele faz uma cena, muito bem construída, de um transplante. 

 

Mostrava todo o drama desde a disponibilidade do órgão, da família dele receber um telefonema de madrugada, ele precisando se deslocar pro hospital correndo, toda a equipe trazendo um órgão de uma cidade para outra, o órgão embarcando no avião e depois do carro, chegando no hospital. E aí, na nossa central de atendimento ao telespectador, que a gente tinha na época, recebemos uma mensagem de um médico de Curitiba, agradecendo a produção da novela por essa cena. Ele era médico transplantista e disse que após a veiculação da cena, trabalhou 72 horas sem parar porque a disponibilidade de órgãos do país aumentou muito…

ROBERTA: Quem você acabou de ouvir foi o Rafael Marques, da Rede Globo. Ele conversou com a gente no episódio 78 aqui do podcast e contou sobre o impacto dessa história na sociedade. Se você gosta de novela, você deve se lembrar, ela se chamava Em Família, foi escrita pelo Manoel Carlos e exibida em 2014.

E aí tinha o Cadu, que era interpretado pelo ator Reynaldo Gianecchini, personagem que tinha uma doença no coração e dependia de um transplante. Essa história emocionou muito a audiência, mudou os dados sobre o transplante de órgãos do Brasil e também emocionou demais o próprio ator que interpretou o personagem.

ARTUR: E nós já tivemos no Brasil muitas as obras que levantaram questões importantes de grande impacto social, como o tráfico de pessoas, crianças desaparecidas, identidade de gênero, violências domésticas, refugiados… e até acrescento aqui, o remake da novela Pantanal que trouxe muitas questões associadas à exploração econômica da terra, a discussão entre agrofloresta e a produção de grande escala no setor rural, o agronegócio e tudo mais. 

 

Vale lembrar que a discussão de temas sociais não é algo novo nas novelas. A primeira novela que tratou de um tema de grande impacto socioambiental é ainda da década de 1960, a novela Verão Vermelho, do Dias Gomes, que teve uma grande discussão sobre a reforma agrária.

SONORA DA NOVELA: Imagina é melhor que não me venha com a sua solidariedade fingida que só me irrita

ROBERTA: Não é um mimimi recente não, viu? Em 77, a Janete Clair também fez barulho tratando dos efeitos da construção de linhas do metrô no meio ambiente na novela Duas Vidas…

 

SONORA DA NOVELA: E agora tudo aquilo estava desmoronando…

ARTUR: São muitos exemplos e muitas causas. As novelas da Glória Perez, por exemplo, trataram de diversos temas, e, se formos além das novelas, tivemos séries e telefilmes que tratam de temas de impacto socioambiental mais específicos, como a recente série Aruanas, produzidas pela Maria Farinha Filmes e disponível no Globoplay. 

 

Aruanas levantou debate sobre os impactos do garimpo ilegal para infâncias indígenas, o presente o futuro do planeta. A série foi lançada em 2020, então bem recente mesmo, e nesse curto período ela teve um impacto bem impressionante…O Instituto Alana, que trabalha junto com a Maria Farinha Filmes, tem um dado que me impressionou bastante. 91% da audiência, que assistiu a primeira temporada da série, disse que se sentiu solidário e teve vontade de se engajar na luta das personagens ativistas retratadas na série.

 

Aliás, a gente já chegou a falar dessa série no episódio 77, na temporada passada. Lá trouxemos uma lista de filmes e séries com a temática de causas sociais e filantropia. Se você ainda não ouviu, vai lá que tem mais dicas muito boas.


ROBERTA: Mas não agora. Agora continua aqui com a gente que a gente tem muita coisa pra falar ainda.

 

SONORA CHARLIE OLIVEIRA: Às vezes essa percepção se uma obra de arte faz uma reflexão político social, independente da intenção do artista, está mais na cabeça do observador, na cabeça do público. Qualquer obra fruto da criação humana, ela pode ser uma reflexão político social na cabeça de alguns e não ser na cabeça de outros.. Uma pedra em pé, por exemplo, pode significar muitas coisas dependendo da onde você vem, quem você é e tudo mais.

ROBERTA: Esse que você ouviu é o Charlie Oliveira, artista visual, designer e especialista em cultura e educação. Ele é o diretor de arte e criação do Estúdio Laborg, responsável pela exposição Rios Descobertos: dos Jerivás aos Pinheiros, que conta com patrocínio da Leroy Merlin e realização do Sesc São Paulo.

 

A exposição esteve em cartaz no Sesc no começo desse ano e já está chegando a sua 10ª edição. Por meio de instalações, mapas, maquetes, projeções e depoimentos, a mostra promove uma viagem no tempo pela história de um dos principais rios da capital paulista, instigando o público a olhar para a relação do rio Pinheiros com um processo de urbanização da cidade. E, no final, a exposição ainda convida quem está na audiência e fez esse percurso a fazer uma doação para organizações que trabalham com a revitalização do rio e o meio ambiente.

 

ARTUR: Questionar a própria existência e o contexto social é algo também que está muito presente nas obras lançadas pela produtora Filmes de Plástico, de Minas Gerais. Eles lançaram recentemente o filme, aclamado pela crítica, “Marte Um”. O longa tem roteiro e direção de Gabriel Martins, que é sócio da produtora e foi selecionado brasileiro para tentar uma vaga no Oscar 2023.

O filme retrata uma família que vive na periferia de uma grande cidade brasileira que, após turbulentos anos que vieram com a eleição de um presidente de extrema direita, tentam viver seus sonhos, seus sonhos que eram possíveis antes.

O filme é maravilhoso. Eu, dando uma opinião aqui, eu sou muito fã do Gabito, conheci recentemente o trabalho dele, e, pra mim é um alento, uma das melhores coisas que já surgiram no cinema brasileiro.

 

SONORA GABRIEL MARTINS: Eu acho que “Marte Um” vai ajudar a fortalecer as possibilidades para filmes independentes brasileiros. E, falando também do poder simbólico, eu acho que, de alguma forma, o filme pode sim provocar reflexões acerca de como a nossa sociedade está operando. 

 

Historicamente já temos alguns casos de projetos que foram motivadores para mudanças políticas, eu sinto que essa movimentação nem sempre vai ser completamente visível. Existe uma descrença de se o cinema realmente é capaz de movimentar isso, mas, vendo a história do cinema, é difícil não pensar o quanto a simbologia de alguns filmes, principalmente quando eles se tornam muito vistos ou muito repercutidos, muda a opinião pública ou comportamento acerca de algo. Tem sim um poder de movimentar, sem dúvida alguma, a sociedade.

 

Existem muitas vozes talentosas no Brasil capazes de criar histórias universais e que podem fazer sucesso, não só no Brasil, mas no mundo. O legado que eu desejo para “Marte Um” é que possa inspirar pessoas que às vezes pensam que seu filme nunca vai ser visto. Seu filme pode ser visto sim! Invista no seu talento, acredite que as pessoas que estão aí com as chaves do portão, ou as chaves do dinheiro, também podem acreditar em outras narrativas, em lugares fora do eixo que estão sendo ignorados pelo mercado. 

 

ARTUR: E, para continuar essa reflexão sobre a conexão do audiovisual com os temas sociais, a gente recebe o Leonardo Brant, sócio fundador da Deusdará Filmes, produtora especializada em documentários de impacto socioambiental. 

 

Antes de se dedicar exclusivamente à produção audiovisual, Leonardo atuou por mais de 20 anos como pesquisador cultural dedicado a investigar a relação entre cultura e mercado. 

 

ARTUR:  Salve, Léo, seja bem-vindo aqui ao nosso podcast. É um orgulho ter você aqui. Muitos ouvintes não sabem, mas eu também sou cineasta, e tenho muito orgulho das pessoas que seguem na militância do audiovisual, acredito muito nessa linguagem. 

 

Eu queria que você resumisse sua longa carreira, para quem não conhece o trabalho da sua produtora, conte um pouco do que você faz na sua carreira de produção audiovisual.  Qual é o nicho que você se dedica? 

 

LEONARDO: Um prazer estar aqui! Sou documentarista, sócio de uma produtora chamada Deusdará Filmes, uma produtora independente focada em documentários, a gente faz filmes e séries documentais, uma das linhas que a gente atua, acho que é importante falar sobre ela aqui para nossa conversa, é o que chamamos de causa docs, documentários que apoiam ou estão ambientados dentro de uma perspectiva de de uma ação social mais ampla, uma causa, luta social ou uma questão social de urgência de importância que a gente acaba, não sei se engajar é o nome, mas a gente se acopla, de certa forma, a essa causa para tentar entender, destrinchar, oferecer e fazer uma espécie de mediação cultural em relação a esse determinado tema. 

 

Um exemplo que eu posso dar é o meu filme mais recente chamado Descarte, sobre a questão dos resíduos sólidos do lixo. A nossa ação não é de ativismo, mas a gente olha para esse campo com um olhar propositivo, pensando sempre em pessoas que estão fazendo algo para desenvolver melhorar o campo e entender como é que a gente pode mediar e destrinchar essas informações, mastigar um pouco essas informações e oferecer elas de diversas formas para o público. Então a gente acaba fazendo, dentro desse documentário expandido, que visa justamente apoiar, conscientizar e promover mudança cultural em relação a determinado assunto.

 

ARTUR: Dentro desse segmento dos filmes com causa, como que os projetos surgem? Esse tipo de doc pode vir de diferentes formas, né? Pode vir de uma pulsão pessoal do autor, mas pode vir também, eventualmente, com uma uma marca, uma empresa relacionada ou mesmo de uma parceria com um produtor em que vocês desempenham uma parte do trabalho. Queria que você contasse um pouco, para quem não é do meio, como surgem esses projetos com causa. 

 

LEONARDO: Geralmente não vem de uma pulsão artística, vamos dizer assim… A gente tem uma outra linha de atividade, que aí é bem filme que cada um dos diretores da casa – nós somos em quatro diretores -, têm seus projetos pessoais, vamos dizer assim e, eventualmente esses projetos podem estar ligados a causas ou questões sociais, mas é outro estímulo. 

 

O que nos faz realizar esses documentários, que a gente chama de causa doc, vem de fora para dentro. Esse de fora é tanto de observar temas importantes que vale a pena a gente entrar em campo para auxiliar a população a compreender melhor aqueles temas. A gente tem uma preocupação sempre educativa, no sentido de olhar o público das escolas, ou seja os alunos, coordenadores pedagógicos e professores como público final de relevância prioritária para o filme, então temos essa preocupação imediata mesmo de chegar à informação e conscientizar e apresentar a questão com a sua complexidade, mas ao mesmo tempo facilitar a compreensão do tema. 

 

Ele vem de fora para dentro porque esse olhar inclui a participação de movimentos e organizações. O que a gente não se dedica muito a fazer, não é a nossa frente, é fazer, filmes sobre a história de organizações, a gente vai mais para causa, mais para a questão social e menos olhando para a organização. 

 

ARTUR: Léo, dentro desse segmento de impacto social de causas, você acha que a linguagem e o formato do audiovisual leva uma certa vantagem em relação a outros tipos de formato narrativo? Tem um potencial de emocionar maior, quando você mostra um projeto social com imagem, movimento e som ele tem um poder de impactar maior espectador do que é um texto, por exemplo, ou você acha que se equivalem? 

 

LEONARDO: A gente trabalha nas várias camadas e nas várias possibilidades de mediação que são complementares. Às vezes a gente atinge a pessoa a partir de um podcast, às vezes a partir de uma reportagem, às vezes a partir de um de uma ação social, mas pra gente o documentário é a peça mais importante, é o produto mãe, porque a gente consegue, numa narrativa audiovisual, incorporar muitas dimensões sem ter que se aprofundar, e, às vezes a gente consegue com uma imagem, com uma frase, resumir ou impactar mais do que com uma hora de conversa. 

 

Por exemplo, no Descarte, a gente fala de sete temas relacionados à questão do lixo. No filme cada um desses temas ocupa um minuto e meio, dois minutos de texto, de imagem, mas às vezes é o suficiente para você entender. São temas técnicos e complicados, mas saber que existem é fundamental. Então a gente falou sobre isso no filme, mas tem um podcast de uma hora só falando disso, a gente promoveu o debate para quem quiser aprofundar. 

 

Essas outras linguagens são muito importantes para nós também. Mas, é claro, que eu, como documentarista, enxergo um potencial no documentário que nenhuma dessas outras linguagens consegue alcançar.  As pessoas precisam se envolver com as histórias, esse ingrediente só o audiovisual tem. 

 

ARTUR: Léo e pessoalmente, como você foi parar nos documentários com causa? Você tem eventos gatilhos? Alguma razão pessoal te levou até esse lugar de militância? 

 

LEONARDO: Durante todo o meu processo de formação, eu como indivíduo, como cidadão, sempre estive envolvido com questões relacionadas a direitos humanos e a causas sociais. Eu já me envolvi diretamente na fundação de algumas organizações sociais, eu tenho isso no meu, vamos dizer assim, no meu sangue, né? 

 

E o audiovisual foi minha primeira opção de carreira, mas, mesmo assim, saí por um tempo para entrar de cabeça na produção cultural. Fui expandindo meus horizontes, eu trabalhei com música, produção editorial, teatro, eu acho que eu trabalhei com praticamente todas as áreas da produção cultural, sempre como pesquisador, consultor, pesquisador cultural e eventualmente como produtor também, mas a maior parte da minha carreira foi como pesquisador e consultor. E, nessas, eu resolvi fazer um estudo sobre a indústria audiovisual. Também recebi um prêmio para fazer esse estudo sobre o mercado audiovisual global e os efeitos sobre as culturas locais… e a gente estava no meio da discussão e da implementação da convenção da Unesco para a diversidade cultural, que é um processo que eu atuei muito presentemente fazendo parte de organizações internacionais, e a Unesco foi a primeira vez que ela abriu para a organização do terceiro setor participar. 


Nessa pesquisa eu tentava enxergar para onde ia a indústria audiovisual.. isso antes de YouTube e antes de Netflix, os dois já existiam, mas não eram os fenômenos que são hoje, né? O YouTube não era da da Google, a Netflix era uma locadora de fita. E aí a gente fez essa pesquisa e eu resolvi filmar essa pesquisa. E aí foi caindo todas as fichas e todo o processo que eu já tinha vivido na na juventude como realizador audiovisual.

 

Não parei mais a partir dali, era para fazer um estudo entregar e aí junto, eu fiz o meu primeiro documentário que chama CTRL V e ele foi muito bem aceito, principalmente no ambiente acadêmico. Eu acabei fazendo vários seminários com ele na Espanha, no Uruguai, eu fui comecei a viajar para fazer essas discussões e fazer essas interpretações sobre as culturas locais. Enfim, são várias participações que eu tive e passei a ser chamado para fazer outros documentários e é aos poucos, eu fui me liberando de todas as outras coisas que eu fazia para me dedicar só fazendo documentários. Me achei. 

 

ARTUR: E como funciona para vocês, Léo, esse antagonismo entre a velocidade de produção de filmes? Porque é um processo lento. Como fica o documentarista que trabalha com causas?

 

LEONARDO: O tempo do documentário é outro tempo, não é esse tempo, não é o tempo do Hard News, não é o tempo do jornalismo… é o tempo da observação da construção de história, que é muito parecido com processo de pesquisa, um processo literário, porque a gente trabalha com textos que a gente produz e que os outros produzem.

 

Eu acho que esse tempo é um outro tempo, a gente faz filmes. A vida útil de um filme, a gente trabalha um filme na produtora por 10 anos, então a gente sabe que vai continuar trabalhando 10 anos para que aquelas questões que a gente está colocando elas perdurem por mais 10 anos embora, não tenha tempo, a gente pode assistir aqui 100 anos a um filme e ainda ser atual. Mas para nós aqui a gente sempre se prepara para trabalhar fortemente nos cinco primeiros anos e depois a gente trabalha com aquilo que a gente conseguiu expandir e a gente consolida espaços nos cinco anos seguintes. 

 

Então tem muito o que se trabalhar com documentários no longo prazo e as nossas questões nunca vão embora, mesmo que o tema seja de urgência. A gente tá fazendo dois filmes agora aqui na produtora, que estão no meio da produção e uma série: um é sobre cultura de doação, que inclusive a gente tem uma uma parceria com Movimento por uma Cultura de Doação, o Instituto MOL e todo esse ecossistema colaborativo que está criado aí em torno desse da dessa questão. E o outro é sobre a fome no Brasil.

 

São questões que remetem, a gente vai lá atrás buscar as causas, as questões que fazem com que a gente tenha uma sociedade pouco contributiva com a filantropia e também com relação à fome, as origens das questões que desembocam no problema da fome no Brasil, elas são centenárias.

E a gente sempre tem essa preocupação em contar histórias de vida, essas histórias de vida elas existem e elas continuam sendo relevantes ao longo do tempo. Ela não perde importância porque mudou um cenário ou porque a gente não tá ligado com a questão midiática e imediata. 

 

ARTUR: Perfeito! E do ponto de vista do financiamento da produção cultural, a gente a impressão que se tem ou a esperança que se tenha que a gente tá aí saindo desse período de trevas onde a gente teve nos últimos anos e, dentro do meio cultural, a impressão que se tem é que vamos voltar a produzir ou vamos ter mais estímulo a produção e uma diversificação dos produtores, vamos democratizar mais a produção e o acesso ao conteúdo. Como vocês estão vendo esse momento? 

 

LEONARDO: Ah, eu acredito muito que o futuro da nossa indústria, o futuro da a construção do Imaginário brasileiro vai partir principalmente de jovens periféricos, de mulheres negras, de LGBTQIA+, de indígenas, de Comunidades Quilombolas. A gente já tá tendo sinais muito concretos de que a nossa riqueza cultural vem dali e que dali que vai vir as grandes novidades. E o que a gente vai produzir de mais significativo no futuro vem dali. Eu acredito nisso então todo o trabalho que a gente faz,  a gente busca estimular, olhar esses talentos e tentar, de alguma forma, colaborar com pessoas que vem dessas realidades e que acrescentam muito pra gente, e a gente acaba aprendendo demais e fazendo junto muita coisa. 


Então a gente tem aqui um olhar muito forte para isso assim e acho que o caminho da produção cultural do novo governo vai ser todo para tentar estimular essa produção. Agora sempre a gente fica de olho quais são os mecanismos adequados para que a gente consiga estimular essa participação e protagonismo, porque, às vezes, a gente tem alguns vícios da nossa relação entre estado e a comunidade artística que são vícios que muitas vezes nos colocam no lugar de de beneficiário final de investimento público. Eu não gosto muito de algumas construções e instrumentos de financiamento público que tem esse vício de encabeçar a produção cultural com recurso e tentar trazer para campos ideológicos, eu não gosto muito disso, mas é a nossa realidade hoje, né? 

 

E a gente vem de um período, como você disse, de trevas mesmo, de uma relação em que o estado financiou muito uma produção cultural baseada em uma revisão canalha da nossa história. Em vários elementos que a produção cultural se torna ainda mais relevante, né? Agora esse como que a gente vai fazer isso eu confio muito na  Margareth Menezes, nossa ministra, mas acho que ela não tá sozinha. Eu acho que tem muitas cabeças ali para pensar junto. São muitas cabeças interessantes pensando ao mesmo tempo a produção cultural, Silvio Almeida, Anielle Franco, a própria Marina Silva,  a Sônia Guajajara, a gente tem um conjunto de pessoas ali no governo pensando, e eu colocaria até o Fernando Haddad e a Simone Tebet porque eles têm a pauta da questão cultural, tá na ideia de um planejamento, tá na ideia de uma economia. Então eu acho que isso tudo favorece e muito. Agora a gente sabe que essa extrema direita não morreu, pelo contrário, ela tá viva., tá forte. Ela vai fazer estragos ainda e vai oferecer resistência. E aí é muito fácil de se perder também, né? 

 

Então a gente tem um desafio bom pela frente, mas com certeza estamos muito melhor do que há quatro anos, mas ainda se eu pudesse voltar eu diria que a gente tá no patamar de  1992 quando Collor promoveu um desmonte total da cultura. A gente começou a repensar isso tudo só a partir do governo Itamar. Então eu acho que a gente viveu um processo bem parecido ali. E estamos reconstruindo e eu e eu vivi né? Eu tenho 53 anos, eu vivi esse esse processo todo né da década de 90, então é muito parecido assim.

ARTUR:  Com certeza bom, o papo é muito bom, mas o nosso tempo hoje aqui então eu queria Léo pra gente terminar se você fizesse seu jabá aí né? E falar um pouquinho desse os projetos que vocês estão fazendo e o que vem por aí…

 

LEONARDO: A gente tem uma carteira de projetos aqui de 40 projetos, né? É difícil a gente falar de tudo, mas a gente tá desenvolvendo e iniciando o projeto, o processo de pesquisa e desenvolvimentos são esses projetos que eu falei, o Doar e o Comida para Quem Precisa, que é sobre insegurança alimentar, sobre a fome. A gente tá muito empolgado com esses dois projetos porque a gente acredita muito que eles são disparadores de muitas discussões e que vão gerar muitos outros filmes, muitos outros debates, então a gente tá muito empolgado. 

 

E a gente tá desenvolvendo filmes sobre a questão social do esporte, sobre os ODS,  a gente está desenvolvendo um sobre mercado de trabalho na maturidade e um filme sobre letramento racial também. Esses são os filmes que a gente tá colocando no mercado esse ano para captar via lei de incentivo à Cultura, a gente tem uma parceria com uma agência lá do do Paraná chamado Valor com Propósito, então a gente tá fazendo esse trabalho junto com elas para desenvolver esses quatro projetos.

E aí fora isso,  a gente já tem um sobre energia, que fala um pouco sobre a matriz energética do Brasil e do mundo, também essa transição energética e tem um que chama o Ciclo das Águas que fala muito sobre a questão da água no Brasil. Essa dicotomia é muito parecida com a da fome, a gente é um grande produtor de alimentos e ao mesmo tempo metade da população em situação de insegurança alimentar. A gente tem os maiores aquíferos e uma das maiores reservas de água potável no mundo, mas, ao mesmo tempo, o acesso a ela tá muito restrito. Então são essas dicotomias que fazem o Brasil ser o que é e também um pouco desta nossa sina, mas não precisa ser assim, porque a gente tem conhecimento necessário para mudar essa realidade. A gente tem conhecimento, uma estrutura democrática e muitos outros instrumentos para poder reverter essas situações.

 

Tem esses em processo e tem um outro que eu gosto muito também que é um projeto de saúde, sobre saúde mental que eu tô fazendo junto com o pessoal do Fronteiras do Pensamento, é uma questão que precisa ser abordada com urgência, porque cada vez mais ela tá em alta. O Brasil é campeão mundial de depressão, ansiedade e vários outros males que vem se intensificando principalmente com pandemia e tal… E eu acho que a coisa da extrema direita no país também deu uma desajustada na nossa psique social, se dá para se chamar isso, tanto pessoas que entraram numa cruzada sem ter ideia do que estavam fazendo, quanto o próprio combate à extrema direita gera processos, eu mesmo tive muita questão aqui de ficar acompanhando diariamente o que que esse presidente fazia ou deixava de fazer. 

 

Eu vejo pela minha comunidade e pelos meus amigos uma questão bem presente. Então a gente tá fazendo um projeto grande sobre saúde mental, educativo e tentando chegar nas escolas. Porque as pessoas não falam sobre isso sequer reconhecem a questão. Não sabe do que pode tratar e fica ali sofrendo como quando às vezes é relativamente, não vou dizer fácil, mas existem soluções já pensadas para essas questões que as pessoas estão vivendo.

É muito projeto, cara, são vários interessantes vindo por aí.


ARTUR: Para quem quiser conhecer mais entra lá no site da Deusdará filmes, com certeza a nossa audiência qualificada, muito do terceiro setor e das áreas de responsabilidade social das empresas, certamente já se interessaram por alguns desses projetos aí que você falou. Desses 40 com certeza algum vai tocar o coração, né? Então visitem lá a Deusdará.

Léo, sem palavras, obrigado novamente pela participação e pela contribuição de vocês com essas narrativas tão importantes. 

 

LEONARDO: Poxa, muito obrigado aqui pelo bate-papo só da gente poder falar um pouco já ajuda a gente a organizar as ideias e fazer melhor sempre. Muito obrigado pela oportunidade.

 

ROBERTA: Muito massa essa conversa com Léo, Artur! Claro que a gente acredita e aposta no poder da arte, da cultura, especialmente da arte de massa da cultura pop, enfim, que consegue de fato chegar a multidões, para influenciar comportamentos e a cultura a gente conseguisse que a doação fizesse parte demais conversas que a gente vê nas telonas e telinhas, com certeza a gente já estaria num lugar diferente.

 

ARTUR: Eu sou muito suspeito para falar sobre esse tema porque provavelmente as pessoas não sabem aqui, mas eu sou cineasta de formação também, trabalhei um pouco com isso e como nos filmes do Gabito, eu também tive sonhos, mesmo vindo também meio como uma zona periférica, tive a felicidade de fazer meus projetos. 

 

Fiz alguns que eu me orgulho muito, mas eu ainda fui de uma época, eu peguei o começo do que eu vejo como uma revolução mesmo na produção cultural que está associado a evolução da tecnologia e tudo, mas eu não botei muita fé que teria espaço para mim ali. Afinal eu peguei uma época do cinema ainda muito elitista, eu vejo com os melhores olhos possíveis esse movimento que a gente tá colhendo os frutos agora que é de democratizar a produção audiovisual e artística, porque não quebrar um pouco a bolha dos que nasceram por isso.

A arte não pode ter só a voz das elites, dos que podem viver patrocinados por alguém. Por alguém, “paitrocínio” como era na minha época. E é muito legal que eu vejo hoje algumas pessoas que acreditaram continuaram postando nisso, eu acho que o Gabriel e o Léo hoje estão fazendo coisas muito relevantes e gerando impacto. O audiovisual tem o poder de retratar a realidade de forma mais complexa e com mais cores. Então você tem não só um retrato da realidade, mas um retrato em movimento, com voz, sons e imagens.

 

Acho que todo projeto social deveria ter algum espaço, para retratar as realidades pelas quais lutam no formato audiovisual, porque assim você consegue colocar pessoas de realidades muito distantes dentro daquilo que você está tratando.

E  já adiantando um pouquinho o nosso quadro Pra Saber Mais, eu indico pra gente não não perder o gancho a entrevista do Gabriel Martins no podcast da Agência Pública em que ele fala bastante sobre essa democratização da produção audiovisual.

ROBERTA: E vale para as organizações que nos escutam e pessoas que trabalham com investimento social privado essa ideia de se aproximar das produtoras culturais, de artistas, para tentar transformar as suas causas em pautas, em projetos que possam buscar leis de incentivo e, de alguma maneira, sair da nossa bolha de terceiro setor em que, muitas vezes a gente prega e fala só para quem já é convertido. E que a gente consiga assim ultrapassar outras fronteiras, chegar a outros públicos de uma maneira diferente de tratar da causa,  mais lúdica como o audiovisual nos permite. 

 

ARTUR: E chegamos ao momento do nosso quadro “Pra saber mais”.

 

Hoje a dica é uma plataforma de streaming que disponibiliza gratuitamente documentários independentes sobre justiça social e lutas por direitos, a BOMBOZILA. Criada em 2016 pela radialista e pesquisadora chilena Sabina Alvarez e pelo documentarista brasileiro Victor Ribeiro, a plataforma traz mais de 600 produções brasileiras e de outros países da América Latina e do mundo.

 

Dá pra montar suas playlists e a plataforma também disponibiliza listas de filmes organizados por temas.

 

Acesse bombozila.com

 

ROBERTA:  Uma boa ideia pode ser montar um clube de filmes de séries para com você com a sua família seus amigos, sua comunidade, sua organização,  organizar momentos em que se assiste coletivamente se conversa depois sobre os temas… para fazer isso outra dica muito legal são todas as produções da Maria Farinha Filmes, que a gente citou lá no começo do episódio com o caso da série Aruanas. Em parceria com o Instituto Alana, elas já realizaram diversos documentários – entre eles “Criança, a alma do negócio”, que fala sobre publicidade para o público infantil, “Muito Além do Peso”, que fala sobre obesidade na infância e sedentarismo e tem também “Tarja Branca ”, que fala sobre a importância do brincar e da alegria. E vários outros. 

 

No site da produtora tem um catálogo especial com produções para exibições públicas. Que podem ser exibidos na sua comunidade, organização social, sala de aula e até em um órgão público e que abrem espaço ao diálogo sobre temas importantes para a construção de um mundo mais justo e sustentável para todas as pessoas a partir dessas histórias.
O site é o www.mff.com.br

Lembrando que todos os links estarão aí na descrição do episódio e também no blog do Instituto MOL. 

 

ARTUR: Por hoje é isso pessoal! Até daqui duas semanas, mas o papo, como sempre, continua nas nossas redes sociais. Segue a gente lá no Instagram, @institutomol, e no LinkedIn. 

 

Esse podcast é uma produção do Instituto MOL, com apoio do Movimento Bem Maior. Esse episódio teve produção da Mônica Herculano. O roteiro final e direção são de Ana Ju Rodrigues e Vanessa Henriques, arte da Glaucia Ribeiro, do Instituto MOL. A edição de som é do Bicho de Goiaba Podcasts. Até mais!

 

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